O progresso e o desenvolvimento integral do homem tem um fundamento teológico (texto IV)

Economiaenegocios Artigos 27 Fevereiro / 2019 Quarta-feira por Padre Ari

Esse pressuposto deve fazer com que os cristãos inseridos nessa cultura contemporânea e complexa tenham a devida prudência, aliás, que sempre é uma postura de sabedoria, quando se trata de abrir-se de maneira sensata para com a modernidade e a pós-modernidade.
Em primeiro lugar gostaria de expor uma distinção para melhor entender toda a reflexão que se está fazendo ao longo das últimas semanas. A diferença entre a “modernidade” e a “pós-modernidade” e que implicância prática impacta na questão da fé cristã e no diálogo com o mundo contemporâneo.

A “modernidade” conserva a unidade da razão, o que significa que a ideia cristã do primado único “Logos”, confirma a modernidade do cristianismo. Essa unidade da razão, segundo Ratzinger, não se constitui em oposição à dimensão cultural do espírito humano. Ora, em contraposição a “pós-modernidade” começa onde a razão perde sua unidade universal e se divide em pluralidade de razões, ou perspectivas sem um ponto comum, onde, o absoluto se esconde de tal maneira sob uma pluralidade de percepções que torna impossível decidir que motivos justificam uma ideia pessoal ou impessoal do Absoluto. (Fonte: notas de rodapé – Assunção, 2018 p.146).
Essa distinção é importante em nossa reflexão, pois de alguma maneira vai respingar na questão de entender a compatibilidade entre “fé e razão” enquanto fato importante na legitimidade e na sintonia entre o “Logos Criador”, Deus inteligência primeira e absoluta com as visões plurais que induz tudo ao relativismo, aliás, que é um dos paradoxos da situação do mundo hodierno. Há uma dificuldade enorme em dialogar ciência e fé.
O teólogo e papa, em sua análise, frisa com propriedade que: “...o diálogo com o mundo possui limite. Por quê? É natural que tal diálogo {...} nunca poderá substituir o trabalho e o mandato missionário da Igreja, e, além disso, a mensagem de Jesus Cristo como Salvador e Redentor, {nunca} poderá ser colocado em questão no diálogo”. (apud – in Assunção, 2018 p.119)
Por outro lado, em vários escritos de Ratzinger, mormente na coleção publicada pelas editoras Paulus/Ecclesiae, 2014,2015 e 2016, cujo tema é: Ser cristão na era neo pagã, a tônica para ser sempre a defesa do binômio da inserção da “Fé em diálogo com o mundo”. Estar no mundo, embora sem abraçar o mundano. Nesses três volumes é bastante esclarecedor e com determinação teológica, filosófica e sociológica como ciências afins sua posição de quem realmente sabe o que está defendendo. Embora o teólogo e papa reconhece que: ..o mundo moderno não aceita o controle da Igreja, o que ele concorda com essa visão. Nisso ele segue o princípio de autonomia do Vaticano II.
Em contrapartida ele é enfático e reage quando o “...o mundo rejeita a existência de Deus, pois, segundo o teólogo e papa, Deus é o centro de tudo e isso é a espinha dorsal do pensamento de Ratzinger.
A essa altura percebe-se como Ratzinger frisa a importância e a vocação do homem moderno como algo sagrado enquanto valoriza o trabalho “racional-metódico” vivido como vocação, o que, na visão do sociólogo Max Weber aponta a visão do protestantismo ascético quando tem estudado a “Ética protestante” que tem legado ao mundo moderno esse conceito de trabalho e não de castigo.

De acordo com Ratzinger, ele acrescenta a partir dos Documentos do Vaticano II, que há nova relação com a “cultura e a ciência” (apud – p.118) quando afirma: “Os pensadores cristãos como Tertuliano, Agostinho e Boaventura, sempre defenderam que a busca do conhecimento não pode se afastar daquela fé, enquanto a mentalidade científica hodierna deixa de lado as questões da Salvação”. (apud – Ratzinger – in Assunção- ibidem).
O teólogo e papa é contundente ao abordar toda a questão tecnológica, inferindo daí as consequências práticas quando o desenvolvimento foca o “absoluto” no próprio progresso. Infere então, ao afirmar que “....o cálculo da técnica sobre si mesma {...} anuncia que o homem exaure o todo do mundo para si e acaba destruindo o mundo e o seu próprio espaço vital”. Ora, para isso se faz necessário o “sacrifício do intelecto”, como já afirmava Atanásio de Alexandria (296-373 d.C) no debate com os filósofos gregos {...} cf. apontou o sociólogo Max Weber a posição determinista de Atanásio ao se tratar do “dogma Trinitário” sobre a primazia da fé, que evitou que ela se dissolvesse nas filosofias. “Ibidem, p.50).
O próprio Weber tinha a convicção de que “...toda a teologia (não só cristã) como já aludi em textos publicados anteriormente, que “certas revelações” devem ser objeto de crença e, portanto, precisam ser colocadas para além dos domínios da ciência. Essa com vertiginoso desenvolvimento da tecnologia parece, em primeiro plano, ser algo intragável, no entanto, a própria ciência não tem conceitos para chegar a luz e ao movimento esperado, entretanto conceituar-se se torna problemático. Assim há outras questões que intrigam a ciência.

Outro aspecto que nos faz pensar que o desenvolvimento da técnica são as novas invenções que se encontram na teologia bíblica ao falar do papel do homem dentre o cosmo. Chama a atenção o texto (Gn 1,28ss), quando Deus os abençoou e lhes disse: “Sedes fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a e dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam a terra”.

Embora na hermenêutica do texto não queira significar que o homem seja o dono absoluto, como alguns querem entender o mundo, embora o significado se trate de “administrar” o mesmo. Ora, Ratzinger ao fazer essa leitura relativa ao progresso e ao desenvolvimento do mundo, e é prudente quando trata dessa questão, pois chega a dizer e alertar que jamais se deve ter como meta um “progressismo ingênuo”. O teólogo e papa vê na tecnologia, no progresso e no desenvolvimento o “...cumprimento do mandato divino de submeter a terra ao domínio do homem, repelindo sempre uma “hermenêutica do absoluto”, aliás que não passa de uma postura de ingenuidade.

A PRUDÊNCIA SEMPRE É UMA POSTURA DE SABEDORIA E MATURIDADE

O sociólogo Assunção ao fazer a leitura de todo o pensamento do teólogo e papa Ratzinger, penso que ele resgata uma riqueza imensa em todo o trajeto da Igreja dos últimos anos tanto com referência a questões anteriores ao Concílio Vaticano II, como após. Talvez tenha passado despercebido a muitos intelectuais a influência e a importância desse que é um renomado teólogo, perito do Concílio Vaticano II, e, que também se tornou papa.
Já abordei em outros textos que no decurso da história da Igreja, entre “sombras e luzes”, “tempestades e bonanças” sempre vêm estampadas no rosto da Igreja de Jesus Cristo, o espírito de seriedade de manter vivo este “Anúncio do Reino de Deus”, embora, e, sobretudo, consciente de estar no tempo e no espaço. Contudo, necessita sempre, para ficar fiel ao Mestre, inserir-se nas culturas que são dinâmicas e mutáveis. Assim se explicam e justificam os recuos e avanços, os erros e acertos e tal conduta se afina sempre mais ao Rosto de Jesus. Se fosse qualquer ideologia, a tendência sempre é petrificar, como vemos na história da humanidade a parcialidade das mesmas, mas sabe-se e se tem convicção que o anúncio necessita continuamente contemplar os novos tempos culturais, sem mexer na “essência” que caracteriza o “Rosto do Mestre”. (continua).

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