Diálogo com a Modernidade e Pós-Modernidade: Gaudium et Spes, Dignitatis Humanae e Nostra Aetate (texto V)

Economiaenegocios Artigos 07 Março / 2019 Quinta-feira por Padre Ari

Parece algo paradoxal, mas uma verdade. Desse pressuposto chama a atenção do teólogo e papa a fineza aguda de sua inteligência em buscar incessantemente uma nova estratégia pastoral para reconhecer os novos tempos com bom senso e, sobretudo, ao mesmo tempo, sem perder a essência da fé cristã. É claro que nesse processo de busca se destacaram outros teólogos, que também faziam o mesmo percurso.
De forma prudente e sábia tornou-se importante frisar, dentre outros, a figura de Ratzinger quando fez sua leitura sobre o rumo do Concilio ao afirmar: “...não a uma abertura total e nem mesmo no fechamento e no isolamento”.
Em contrapartida, Ratzinger tinha uma preocupação em responder aos questionamentos inadiáveis certamente como teólogo pressionado em responder aos questionamentos dessa nova cultura, aliás, que ele sente que era preciso dar um passo significativo para uma nova evangelização, embora com novos métodos, e, sobretudo, sempre fiel ao Mestre.
O fato é que a leitura que o teólogo e papa Ratzinger fez, a partir do documento pastoral “Gaudium et Spes” parece não ter respondido ao que ele buscava, mas que, nesse caso, teria que se estender a outros dois documentos que dariam um passo decisivo e fariam a virada da Igreja: Dignitatis Humanae e a Nostra Aetate. Para ele esses documentos significariam “...uma revisão do Syllabus de Pio IX, {expressão do sociólogo Assunção}, uma espécie de “Antysillabus” p. 121). Nesse contexto, e, de acordo com Assunção, afirma que Ratzinzer “...reconhece o amadurecimento do próprio Pio XI, quando o mesmo mostrou certa abertura ao liberalismo econômico da época, e, ao mesmo tempo, corrigindo algumas posturas de Pio IX e Pio X, aliás, atitudes tomadas em consonância com situações históricas concretas daquele tempo.
Sempre é oportuno destacar ao leitor, o quanto é importante e sábio saber distinguir os diversos tempos em que a Igreja precisou e precisa avançar ou recuar, pois, enquanto estamos no tempo e no espaço nunca será diferente. Observa-se nos dias atuais para muitos, a falta de prudência e sensatez ao julgar o passado, seja de natureza eclesial ou não, sem uma leitura objetiva dos tempos de então. É por essa e outras que nunca se pode tomar a bíblia, mormente do AT e NT, e interpretar os acontecimentos ali narrados, sem levar em consideração a linguagem, a cultura e os costumes do tempo.
Embora, e, lamentavelmente nos tempos atuais emergem muitos pregadores, salvo sempre as exceções, que sem nenhum preparo nas ciências bíblicas e na teologia, dizem bobagens. É preciso atenção. Precisa-se de sabedoria, humildade, estudo, meditação e contemplação da Palavra, com muita oração para o discernimento. Por outro lado, o Espirito Santo, quando não desejamos interpretar a Palavra por interesses alheios à autêntica espiritualidade crítica, sopra não somente nos doutos e estudiosos da Palavra de Deus, mas também em pessoas simples, humildes e sensatas.
Sempre quando se lê o passado de qualquer organização, no caso específico da Igreja, é importante ter presente a compreensão dos líderes da época ao tomarem determinadas decisões, embora valha também a mesma observação aos que hoje querem trazer de volta situações que serviam para o tempo de outrora. Isso não deixa de ser certa ingenuidade, pois a evangelização deve hoje, responder aos desafios da cultura vigente. O saudosismo nem sempre é sadio. É imprudência querer fazer uma leitura da cultura hodierna com olhos de séculos anteriores, pois os desafios, salvo exceções, são outros e é para estes que se necessita responder com um novo paradigma e nova estratégia o Anúncio do Reino.
Retomando o Concílio Vaticano II, e, de modo especial o “Gaudium et Spes”, percebe-se que o documento, como já foi afirmado acima, tornou-se um marco divisor entre o antes e o depois do Concílio, pois além de ser incisivo nas relações Igreja X Mundo também colaborou numa revisão interna da Igreja. A questão toda estava no processo de uma cultura irreversível, aliás, embora preocupasse os limites de até onde era possível assimilar essa nova cultura em seus aspectos positivos, favorecendo assim a nova evangelização, sem perder o foco do “Anúncio”. Os novos tempos colocaram a Igreja numa “situação um tanto constrangedora e incômoda”. Dois aspectos é preciso frisar diante dessa realidade, ou seja, a Igreja ter a coragem de sair de seu “gueto” para, por outro lado, dialogar com uma cultura que despontava, embora com seus aspectos ambíguos.

O teólogo e papa Ratzinzer, mesmo ciente de que o documento “Gaudium et Spes” traçava um novo tempo para a Igreja, ainda não se deu por satisfeito, pois estava convencido de que eram necessários adicionar os documentos “Dignitatis Humanae e Nostra Aetate. Afinal, segundo o mesmo, eram imprescindíveis para um diálogo frutuoso com os judeus e as religiões não-cristãs. Esse tripé de documentos, segundo Ratzinger, foi o marco do fim de uma época na história da Igreja. De modo que “...a reconciliação oficial da Igreja com a nova época {foi} estabelecida a partir do ano 1789”. (apud Ratzinger – in Assunção p.122).
O sociólogo Assunção, fazendo uso das palavras do teólogo e papa Ratzinger, afirma que: “...o Antysillabus {completaria} o diálogo com a modernidade, pois o Dignitatis Humanae, abriu o diálogo com outras religiões, que foi a primeira vez que um Concílio tratava diretamente sobre o assunto e o Nostra Aetate, porque foi o divisor de águas no diálogo entre católicos e judeus {...} superando a questão do “deicídio”, ou seja a acusação de que os judeus eram coletivamente culpados pela morte de Jesus, que, para muitos, estava na raiz do antissemitismo.
Partindo do pensamento de Ratzinger, Assunção expõe com muita clareza, qual a intenção que estava subjacente à Liberdade Religiosa, ou seja, tornar explícita a questão do poder eclesiástico e o poder civil. Dois aspectos de mútuo respeito sem “...qualquer tipo de coação no campo das opiniões religiosas, seja para promovê-las ou para cerceá-las. A liberdade religiosa seria para todos e não apenas para os católicos”.
É interessante observar que o teólogo e papa Ratzinger, em meio às reações sobre a Liberdade Religiosa, deixou claro: “...o real significado do conceito e da própria missão da Igreja {que estava} muito preocupada na conservação do patrimônio construído”. (ibidem - Assunção) Desse contexto histórico é interessante a conclusão à que chegou o teólogo e papa Ratzinger: “...uma discussão destinada a marcar o fim de uma época, aquela que tratava da liberdade religiosa”. (cf. ibidem,). É importante expor todo esse caminho histórico da Igreja para se entender a Igreja pós-Concilio, seus conflitos, avanços e recuos, como a superação de muitos elementos que não dizem respeito à essência da fé.
Chama a atenção também, segundo o sociólogo Assunção, quando analisa a posição do teólogo e papa Ratzinger, ao afirmar que o mesmo: “...foi uma das mais importantes discussões do Vaticano II, pois “neste debate se fazia presente na Basílica de São Pedro o fim da Idade Média, mais ainda, o fim da Era Constantiniana”. (ASSUNÇÃO, Rudi Albino – Bento XVI, A Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade” – Uma análise da visão do Papa e Teólogo sobre o “Mundo de Hoje” – 2018 – p.123). E conclui ainda que aqui se afasta da posição estatal.

Todo esse contexto histórico, aparentemente {sem uma clara explicação} parece inútil. Mas conhecendo um pouco essa caminhada da Igreja ao longo da história, fica mais fácil entender os avanços e recuos internos dentro da Igreja e a necessidade da mesma de perceber a mão de Deus em todas as religiões. O Documento “Ad Gentes” quando aborda essa questão de outras tradições religiosas, mostra que nas mesmas existem: “Semina Verbi”, sementes do Verbo. Por isso mesmo é que Ratzinger ao falar da Liberdade Religiosa diz: “...a liberdade religiosa não se opõe à missão, e , na verdade, {é}um dos seus princípios constitutivos, pois {...} a Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo, pois “refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens”.
Todos os assuntos acima e outros textos publicados com essa temática, não têm e nem pretendem ser uma exclusividade na leitura da situação eclesial. Embora se vivencie uma situação difícil no processo de evangelizar um mundo com enormes e novos desafios. Portanto, o que se busca, e isso se percebe na figura do Papa Francisco, é o esforço que faz para atualizar a evangelização, embora às vezes, e em muitos e cruciais momentos dentro da Igreja, se encontra sozinho e contra a correnteza de uma sociedade vazia, mas também eclesial, talvez porque se perdeu o “fio” do agir do Mestre. Não se tem a pretensão de esgotar as hermenêuticas tanto internas quanto externas da Igreja, mas, sim, abrir a visão de muitos cristãos que resistem a enxergar que é preciso inovar constantemente as estratégias do “Anúncio”. Nisso é perceptível o quanto nosso querido Papa Francisco tenta fazer uma leitura sempre a partir do Evangelho e não tanto das estruturas eclesiais, aliás, que muitas vezes mais atrapalham do que ajudam na Nova Evangelização. Desacomodar sempre é algo que incomoda. Mas essa é a tarefa e a missão que Jesus nos deixou: proclamar o Reino de Deus. (continua)

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