Uma Igreja aberta e dialógica: norteia-se para além de uma cultura mundana através do Espírito de Cristo

Economiaenegocios Artigos 12 Março / 2019 Terca-feira por Padre Ari

Embora ela mesma e de maneira contínua tenha que internamente viver com autenticidade a espiritualidade crística por ser santa e pecadora.
No entanto, frente ao mundo ela precisa saber discernir ao mesmo tempo quando “resistir” e quando “colaborar” na construção positiva de uma sociedade fraterna.
Três aspectos a serem levados em conta para o “Anúncio”:
a) viver a fidelidade crística
b) ser uma voz profética
c) colaborar na edificação de um mundo melhor conservando sua identidade.
O Concílio Vaticano II, na busca de fidelidade à missão, sabia que deveria estar ciente de que: “...existem valores que, nascidos fora da Igreja, podiam encontrar seu lugar – uma vez revistos e corrigidos – na vida dela”. (cf. Assunção, 2018 – p.127)
Por outro lado, na visão do teólogo e papa Ratzinger ele foi incisivo em afirmar com a sua peculiar clareza conceitual que: “...na gênese da modernidade e de muitos dos seus valores {havia a contribuição} do cristianismo, {aliás} elementos que proviam do próprio centro do mesmo”. (apud Ratzinger – (ibidem).
Outro aspecto a ser destacado do teólogo e papa Ratzinger é quando afirma: “...a situação que o Vaticano II teve que enfrentar não foi exatamente novo para a Igreja: {e isso} remonta aos primórdios da Igreja, ao encontro da adaptação da fé bíblica com a cultura grega; ele remete também ao século XIII, quando o pensamento aristotélico entrou em contato com a tradição filosófica medieval de matriz platônica, quando, para ele, ouve o risco de separar radicalmente fé e razão, o que não ocorreu por conta da harmonização realizada por Tomás de Aquino”. (ibidem p.131). Mais adiante se poderá perceber que em outras fases da história e/ou em séculos posteriores a mesma releitura do “Anúncio” teve que ser feita, e, assim sempre será.

Torna-se importante recolocar toda a história retrospectiva da Igreja, para que as novas gerações de leigos que atuam na pastoral, assim como os jovens sacerdotes e religiosos (as) ao se defrontarem com situações adversas em seu ministério apostólico não fiquem impressionados e angustiados por ter diante de si um mundo adverso à fé cristã. Como disse acima, a verdade é e sempre será uma realidade cada vez mais frequente no percurso da Igreja enquanto estiver no tempo e no espaço.

Portanto, no processo de formação dos novos agentes, sacerdotes e consagrados, que sejam alertados e preparados para os desafios contínuos no processo de evangelização a serviço do Reino. É uma necessidade despertar senso crítico para saber lidar com consciência, com as adversidades e dificuldades do “Anúncio”, pois sempre vai exigir da Igreja como um todo, reflexão contínua e com novas formas de evangelização.
A solução nunca será fechar-se num “gueto” para defender o “depositum fidei” = (depósito da fé), mas ser uma Igreja criativa, com agentes de pastoral lúcidos e convictos de sua fé, com bom preparo teológico, filosófico, sociológico e das ciências em geral, embora e, sobretudo com destaque ao espírito de oração, como momentos de silêncio na presença de Deus e deixar que Ele fale. Não incorrer na ideologia do ativismo barato e sem fundamento, nem entusiasmos ingênuos, pois o desafio é complexo e exigente. Portanto, menos palavrórios vazios e superficiais e mais atitudes de escuta do Mestre que nos inspira com seu silêncio antes de seguir o trabalho da evangelização. Para tanto, se necessita estar atento aos sinais, ter momentos de silêncio na preparação, afinal é essencial para discernir não somente os novos desafios, mas, e, sobretudo as nuances da evangelização.
A Igreja deve ser criativa, os agentes de pastoral ter suficiente lucidez, com bom fundamento teológico e espiritual, para discernir os diversos momentos históricos que nem sempre são de calmaria, mas, e muitas vezes de fortes tempestades, que sem uma espiritualidade profunda de joelhos diante de Deus, pode nos induzir a abandonar o barco do Mestre.
Ao refletir sobre as dificuldades que se enfrentam no hoje da história, percebe-se regiões, países inteiros que num passado não longínquo foram protagonistas no “Anúncio”, infelizmente hoje, salvo as exceções, tornaram-se indiferentes mergulhados na tecnologia de ponta e numa vida de luxo, esbanjamento e voltados para si mesmos e embriagados numa transcendência imanente. Sem margem de dúvida, isso não nos deve levar a um desânimo, e, sim, fortalecer a nossa fé, com base na oração, na simplicidade e no desapego das coisas materiais que têm afastado tantos cristãos do Mestre para viverem uma vida suntuosa e refém do próprio progresso tecnológico.
O Papa Francisco em seu Pontificado tem questionado não somente de forma verbal essa acomodação de muitos cristãos, sacerdotes e religiosos e consagrados, ele insiste como bom pastor, não apenas pelas palavras e catequeses, mas, acima de tudo da própria postura ante as dificuldades do mundo. As palavras são de prata, mas o exemplo é de ouro. As novas metodologias para a evangelização são claras ao ver a postura de nosso Papa Francisco: testemunho pessoal, oração, estender as mãos aos que nos pedem socorro e confiança nas palavras do Mestre. “...eu estarei convosco todos os dias da vida” e “...se perseguiram a mim que sou vosso Mestre, quanto mais a vós que sois meus discípulos”.


NÃO APENAS NOVOS MÉTODOS PASTORAIS E SIM UMA PROFUNDA ESPIRITUALIDADE CRÍSTICA É O QUE FARÁ A DIFERENÇA

De nada adiantam os sofisticados métodos pastorais, leis, normas e tantos outros mecanismos, que são importantes e podem ajudar no processo da evangelização, embora é preciso certa maleabilidade em regras e normas, até porque, em muitas vezes, mais afastam do que evangelizam. Não, a uma estruturação institucional pesada como se fosse uma simples organização empresarial, é preciso ir além.
O importante é acolher as pessoas que vem ao nosso encontro, em nossas secretarias e/ou outros lugares com carinho e compreensão, embora não estejam sempre dentro das normas, mas buscam a Igreja e, este é um momento importante entre cumprir as normas e acolhê-las da forma como vêm ao nosso encontro ou muitas vezes por não serem atendidas viram as costas e nunca vais voltam. Ser uma testemunha e ter uma espiritualidade que fala por si dos agentes de pastoral, sacerdotes, bispos, consagrados, religiosos(as). Manter uma conduta de estar continuamente na presença do Altíssimo. O teólogo e papa Ratzinger com muita lucidez, prudência e sabedoria em sua análise ante o pós-concílio afirma: “...{não} a um série de “’{aberturas indiscriminadas} ao mundo, e continua {mas} ter uma consciência de agora pertencer a uma minoria {e} devem “...reencontrar a coragem do anticonformismo, a capacidade de se opor, de denunciar muitas tendências da cultura que nos cerca, renunciando a certa eufórica solidariedade pós-conciliar”. (ibidem pp.126-127).
Outro aspecto que se ouve na mídia, ou seja, o “número de católicos está aumentando”, mas, em contrapartida, estão diminuindo as vocações. Pessoalmente não posso concordar, pois há vocações, sim! Porém falta em muitas Dioceses, salvo sempre as exceções, um trabalho com os jovens. Não bastam grandes concentrações de jovens, que são positivas em princípio, mas ainda não significa uma pastoral eficiente para despertar a vocação dos jovens, é preciso fazer o chamado pessoal como Jesus fez com os seus discípulos, estar com eles, e junto com eles ser testemunha de amizade, e, não de moralistas, companheiros sem se identificar com os erros dos mesmos; eles querem ver alguém parceiro, mas diferente, sem grandezas e se acharem melhores do que eles. É o estar junto com...
Por outro lado, ser uma verdadeira testemunha a eles de que se é feliz como sacerdote, consagrado e ligado ao projeto de Jesus, afinal eles buscam se realizarem e o mundo como tal oferece muitas opções, embora frustrantes em termos de realização, não há nenhuma referência que lhes que sustente a médio e longo prazo a alegria, a paz e a realização. Este é o segredo! Os jovens apreciam desafios e o diferente! Em que somos diferentes?
Sem a pretensão de querer ser exemplo, expondo minha experiência de sacerdote, posso afirmar que trabalho há mais de 30 anos como professor universitário, já fui pároco e, hoje, auxiliar de uma paróquia em que já fui pároco durante muitos anos, e continuo atuando como professor na Universidade, auxiliar numa paróquia e ainda escrevo livros diversos. Foi um período de convites a jovens, alguns foram alunos, outros se encontravam no Campus da Universidade. Com alegria digo que mais de 20 jovens hoje são excelentes sacerdotes. Mas continuo ainda hoje fazendo esse trabalho inclusive, encaminhado outros a Dioceses dos quais pertenciam, porque optavam por retornarem à sua Diocese. Há poucos dias ainda, disse ao Bispo que tenho mais jovens. Nunca se deve perder o entusiasmo, se a gente é feliz na vocação isso fascina e atrai os jovens. Não acredito que não tenha vocações!
Finalmente a própria história, e nisso, tenho grande admiração pela figura do teólogo e papa Ratzinger e seus sucessores papa Francisco, como também seus predecessores, o esforço que fizeram e fazem para sempre deixar acesa a chama do “Anúncio” nestes tempos difíceis, complexos e, que, muitas vezes precisam ir à contramão de uma cultura plural que nem sempre está em sintonia com os princípios cristãos. Infere-se daí que jamais a Igreja nessa cultura, muitas vezes dissonantes, contraditórias deva se fechar sobre nossas convicções. Ao contrário, são desafios que fazem a diferença numa época de confusão conceitual e de valores, sem rumo e referências construtivas, ressalvando sempre as exceções.
É tempo de quaresma, reflexão, exame de consciência. Não confiar apenas em nossos métodos pastorais e planos, mas, e, sobretudo, na graça e misericórdia de Deus Pai, para colaborarmos no progresso e desenvolvimento da humanidade, mas evitar o reducionismo que nos induz ao reino do homem ao absolutizar os bens materiais que são falíveis e passageiros, e, sim, o Reino de Deus. É bom pensar!


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