E confabulava com seus botões: “Como pode se esquecer da mãe que encobria as suas traquinagens de criança para o pai não ficar zangado; que não media esforços para satisfazer-lhe os desejos. Mas ele era um bom menino, aprendeu o catecismo, fez a primeira comunhão, foi coroinha...
Depois cresceu, ficou cheio de idéias e partiu em busca dos seus sonhos, como tantos outros jovens, seduzidos pelos falsos brilhos da cidade grande. No início escrevia, vinha visitar-nos quando podia e dizia que estava estudando, pois queria ser alguém na vida, e lá havia mais oportunidades".
O tempo foi passando, as notícias rareando, o pai faleceu... Dona Margarida pensava: “Eu fiquei só com minha saudade, sobrevivendo das lembranças, dos tempos em que a vida me sorria.
Mas no seu coração de mãe persistia uma certeza, se ele lembrasse das alegrias dos tempos de criança voltaria pra casa. Estava ela ensimesmada, perdida em devaneios, quando ouve baterem na porta: “Quem será numa hora destas?”. Quando abriu a porta, seus olhos não podiam crer que fosse verdade, era ele, o seu menino!
Agora um homem cansado da vida, rosto sofrido, que retornava a casa de seus pais. Ela então abre os braços, alarga o sorriso num gesto de boas vindas, seus olhos se cobrem de pranto, lágrimas sentidas rolam pelas faces sulcadas, pois foram longos os anos de espera e solidão...
Ele se aninha no aconchego dos braços da mãe, e sente-se de novo uma criança. Nada mais o intimida, o que ficou no passado, as drogas, a juventude perdida, os falsos amigos que o abandonaram a própria sorte. Ele aprendeu que na vida tudo tem um preço.
Agora é tocar prá frente, vida nova! Estar de volta lhe parece bom demais, pois nos seus momentos de horror, nos seus delírios, isso lhe parecia uma coisa remota, inatingível. É tanta alegria, tanta paz, até duvida que tudo não passe de uma ilusão.
Quantas vezes imaginou esse momento, então lembrando dos tempos de coroinha, se ajoelha ante o presépio, eleva o pensamento ao alto e agradece. E comprende, se não fosse pelas preces de sua mãe ele jamais teria retornado ao lar dos seus afetos!
Feliz Natal!
PS:Texto enviado pela leitora Norma Figueredo
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