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/ Esportes
Gustavo De Marchi
Texto publicado em 05/05/2011* - 00:00, quinta-feira.por Gustavo De Marchi
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 12 meses!
Noite atormentada
Outro fragmento dos “Diários de Pesca” que conta um pouco de uma história de forma pouco preocupada. 19 de maio de 2010. Ennis. Montana.


Noite atormentada
“Sempre imaginei que pescar no norte da América do Norte era pescar no frio. Não conseguia imaginar dias quentes aqui. No entanto, obviamente, esta idéia esta completamente errada e faz muito calor aqui no verão. É o que me disseram os pescadores. E eu? Ainda acredito em pescadores? Agora o frio é de rachar. Ando muito preocupado, fazem uns 15 minutos, acho que vou perder a extremidade do nariz. Ocorre que aqui ainda não é verão, propriamente dito. É fim de Outono (o Outono tem fim? Às vezes acho que não, vivo nele, ele me persegue. Aprendemos a conviver um com o outro e hoje ele que me alcança o queijo durante o café da manhã. No fundo, espero que esta relação não dure. Na partilha, vou pegar a parte quente!). A barraca está congelada. Por dentro e por fora e pelas entranhadas malhas do tecido, lá no caroço molecular. Meu nariz vai quebrar em mil pedaços no próximo espirro. Exagero. Está esquentando, já não faz tão frio agora. Exatos dois graus negativos e está nevando fino lá fora. Abri a barraca para espiar, tudo está ficando branco daqui até o horizonte da planície, ao sul, para onde segue o rio Madison, que passa aqui ao lado, carregando as carcaças de animais mortos. Comida de ursos. As montanhas ao redor estão completamente brancas, por lá nevou muito durante a noite.
Frio. Acordei faz pouco e escrevo enquanto aguardo sinais de vida na barraca ao lado, a “barraca amarela”. Que barraca linda, uma Eureka, muito usada no Everest, Aconcagua, K2 e agora nas barrancas do Madison River! Olhando para esta barraca percebo que ela trouxe uma aura solene ao acampamento. Por outro lado, é a coisa mais fácil para montar; caso um ser humano leve mais de 2 minutos para armá-la ele deve ser imediatamente rebaixado para outro grau taxonômico, próximo aos jumentos. Até eu monto essa barraca aí! Modéstia à parte, eu consigo montar a minha, que tem umas 30 varetas e não sei quantas emendas e parece um abajur. Laranja. O Abajur Laranja. E entra vento, o que seria uma vantagem no deserto, mas, não aqui, no meio da neve. Com um nariz abaixo de zero. Um focinho de cachorro é mais quente. Se eu perder um pedaço do nariz por enregelamento, a fábrica coreana que fez o Abajur Laranja vai conhecer a fúria dos advogados brasileiros.

Ontem, a pescaria foi boa. Fria. Peguei três trutas, perdi outras três. Uma enorme, gorda, morena, olhos castanhos, uma deusa. Morenaça! Acertei a mosca, isto me classificou para a segunda etapa: a comemoração! O acampamento está bárbaro. Montamos entre dois fragmentos de uma floresta que passou por aqui, uma barraca ao lado da outra, uma mesa separando o espaço até o fogo (o sagrado Ring Fire) e o Jeep atacando o vento pelas costas. Ao lado do fogo, o rio. A ventania chegou conosco. Ao escurecer, fizemos um churrasco de porco com lingüiças. A carne de porco é relativamente barata aqui, o que me impressionou, acreditei que não comeríamos churrasco nos Estados Unidos da América (que nome enorme para se escrever com um coto de lápis! USA é melhor, mais curto; Brasil é tão mais fácil de escrever; curtinho, compacto, gostoso até para pronunciar; Brá Zil, isto não é saudade, apenas uma constatação prática). Ah, o churrasco! Estava gelado ao redor, contudo, tínhamos um bom fogo começado. E vinhos da Califórnia. Claro e as cervejas fortes e encorpadas. Cada cerveja, uma melhor que a outra. Fortíssimas. Os vinhos passam uma vergonha feia... E cambaleando cada um foi para sua barraca.
Acordei quando a tormenta estourou as cordas tensoras dos espeques da barraca (ainda não consegui avaliar quantos). A sobre-lona soltara em dois lados e estava batendo contra a lona, mas não chegava a jogar água para dentro. Como assas, flap, flap... Imaginei estar no ventre de uma grande ave cor de laranja. A ave enorme batendo as asas contra a tormenta voava mal pra caramba, pois tinha que me carregar em seu ventre obeso. A laranjona reclamava que não voaria mais depois de comer churrasco de pescador e tomar vinhos da Califórnia. Ela também preferia as cervejas feitas no fundo do quintal.
O vento era intenso. Confesso que por segundos acreditei que estivesse lidando com um urso, pois vira ossos e carcaças, que o rio espalha com o degelo, espalhados próximos à área do acampamento e não consigo mais ver um osso sem pensar em um urso. Não só osso, bosta, arranhão em árvore, pegada, pêlos... agora tudo é urso. Acho que os ursos estão aqui ao redor, me espreitando dentro dos restos da floresta. Tenho que escrever na lista dos afazeres: jamais rever o filme “O homem-urso”. Então dormi novamente após dar uma espiada na chuva forte que caia torrencialmente e deixei o barulho da chuva, do vento e das assas da barraca embalarem meu sono, nada como uma tormenta para dormir bem em um acampamento, ela é definitiva: em uma tormenta nada pode ser feito e segui viajando na barriga da gigantesca ave laranja pelo resto da noite, contra a tormenta, em meio às montanhas para ir repousar em uma mina de ouro abandonada em uma cidade fantasma.

Este frio que congelou o mundo deve ter congelado os peixes. Assim que levantarmos e eu fizer um café preto e forte e brasileiro, na reunião de conselho, vou votar por levantar acampamento, para irmos tomar o breakfast na cidade de Ennis, no Faroeste, só para ver o Xerife de botas e estrela de ouro no peito mascando fumo e comer sanduiches enormes servidos pela simpática gorda que brinca comigo em um inglês que nunca vou conseguir entender, mas sempre vou imaginar que é uma cantada, e depois subir as montanhas para conhecer as três cidades fantasmas que estão aqui perto: Virginia City, Nevada City e Alden. Talvez encontro um fantasma ou um urso, ou melhor, uma grande ave laranja repousando em uma mina de ouro.”
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