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Guia de Gramado RS - Serra Gaúcha - Brasil

Gramado RS - Serra Gaúcha

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Marília Daros
Texto publicado em 07/11/2008* - 13:28, sexta-feira.por Marília Daros
*Atenção: você está lendo CONTEÚDO DE ARQUIVO. Publicado há mais de 3 anos e 6 meses!
Um Natal de presente!
Chegando o Natal, chega também um leve revisitar de antigos desejos. Afinal, quem não tem uma criança dentro de si a espera de seu presente?
Retroceder no tempo da memória não significa regredir e esta é a grande diferença que marca os que buscam novas idéias no passado. Parece estranho dizer isto, mas quantas ações do passado, hoje, são idéias novas. É apenas uma questão de comprometimento com o coração e com a emoção. Recriação.

Gramado já viveu grandes Natais, muito antes do Natal Luz ser criado, repletos de uma magia que hoje, sinceramente, só pode ser conseguida com artifícios de fogos, de papéis e fitas coloridas, de desfiles ornamentais e de um glamour que não tínhamos e que talvez, ainda não tenhamos.

Sempre houveram ceias, pinheiros e presépios de Natal em Gramado. Somos a somatória de etnias que trazem em suas bagagens, todos os elementos essenciais que marcam os Natais de hoje em dia e que já marcavam os de outros tempos.

Uma grande árvore “de verdade”, o Pinheirinho, que atingia a total altura do pé direito da casa do avô Accorsi ( quase 3 m ), não era uma herança italiana. Também os alemães que nos legaram este hábito, aprenderam com povos pagãos que desde o século XVII, na Alsácia já registravam em uma crônica o seguinte:
“... No Natal, arma-se em Strassburgo, nas salas, pinheirinhos, colocando-se neles rosas confeccionadas de papéis coloridos, maçãs e pequenas cucas...”
Só no século XIX é que este costume chegou ao Rio Grande do Sul, com os imigrantes alemães, especialmente, os evangélicos.

Frau Wittmann, uma senhora alemã, cristã devota e habilidosa, fazia um pinheirinho tão lindo e especial que os moradores de Gramado iam a sua casa para visitar. E ela abria suas portas para este tipo de “turismo cristão” que não fazemos mais.

A árvore significa a luz que veio ao mundo com o nascimento de Jesus. Então, o pinheirinho de meu avô italiano, já tinha “ares” de integração de culturas... Estrelas, corações, brinquedos, confeccionados em latão, se juntavam às velas presas aos ramos, que eram acendidas na noite de Natal, com todos reunidos em sua volta.

Mas no mais, este pinheirinho era bem italiano, pois lá estava o presépio, com pastores, ovelhas, Reis e camelos, estrebaria e manjedoura. Um longo caminho em meio aos musgos colhidos no morro do Lorenzoni, bem cedinho, ( e renovado durante o período que antecede o Natal ), dava ao trajeto dos Reis um ar de encantamento, de expectativa, bem gramadense.
“ Será que demoraria muito para que os Reis chegassem ao presépio e o Menino Deus então fosse colocado na manjedoura?”
“ Era o sonho de um presente que viria junto com o nascimento ou era o desejo de ver o nascimento acontecer novamente a cada ano ?”

As lojas, as poucas que existiam, só tinham brinquedos para vender nesta época, e olhar uma vitrine de Natal era quase melhor do que comer o “ pão-de-ló “ inconfundível da avó Anna. Lembrar da dona Olinda Dalle Molle, é reverenciar aquele comércio singelo e sincero. Lembrar da dona Nenê Pasqual é reverenciar aquelas mãos que criavam tantos sabores. Lembrar da grande árvore de Natal da casa dos Nelz, é garantir o sabor dos chocolates degustados a cada subida da escada onde as crianças, como eu, brincavam.

Ali na esquina dos Abdalla, no espaço nobre de um antigo armazém , em 1971, o jovem Moacir Foss mostrava ao público local e já turístico, suas miniaturas manufaturadas em materiais reciclados, levando todos a conhecer como eram Jerusalém e Belém na época do nascimento de Jesus. Uma arte que hoje convive com o Mundo Encantado Parque (Se não conhece, deve conhecer!)
Abençoadas lembranças!
Distintas, éticas, sensíveis aos apelos de uma comunidade que se amava e se conhecia tanto quanto a palma de suas mãos...

Se os italianos aprenderam a armar pinheirinhos com velinhas acesas no dia certo, os alemães, aos poucos, adotaram o presépio.
Era natural que isto acontecesse, se pensarmos que a juventude de então começava a quebrar os preconceitos raciais e já nasciam crianças com sobrenomes misturados também, garantindo esta diversidade que hoje somos.

E você deve lembrar também que era um hábito, no dia 25, cedinho, as crianças visitarem os “padrinhos”, que sempre tinham um presente para seu afilhado ?
Parece mentira, mas até hoje eu ainda recebo presente de Natal de minha madrinha! A força de um hábito ou um carinho sincero?
E a roupa nova para o Natal? Não se compravam roupas como agora e escolher a roupa de Natal já era um grande presente. Quem podia mais, tinha mais enfeites, mais fitas. Mas isto não era o mais importante. O importante é que era uma roupa diferente e nova. Para o dia e para a noite de Natal.

As missas natalinas ou os cultos, aconteciam com toda a família presente. Poucas são as famílias hoje que se reúnem para a Missa do Galo.

Nosso Padre José Scholl, que marcou aqueles Natais de Gramado, escreveria cânticos natalinos como este, para cantarmos naquela igreja que até hoje nos compromete a rezar:

“ Alegrai-vos, povos todos. O Senhor Jesus nasceu.
Linda e fulgurante estrela, nesta terra apareceu.
Verbo eterno feito carne, entre os homens habitou.
Suas culpas e pecados, generoso perdoou.
Em Belém junto aos pastores, entre o canto triunfal
dos angélicos concertos, veio a luz sobre este mal.
Sob a vista enternecida de Maria e São José,
dissipou-se a densa treva, despertou a nova fé.”



Entoando estes cânticos, as vozes do Coral de São Pedro, vindas do alto do coro eram como se os anjos estivessem cantando. Uma emoção que se unia à decoração feita pelas Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
De mãos dadas se iniciavam as orações de dezembro e se chegava, em união, ao Dia de Reis, em 6 de janeiro.
E era muito bom esperar os “Ternos de Reis”, os “Cantadores do Menino Deus”, de cultura luso-açoriana, ( preservados pelos Moura e pelos Abraham naquela época ), que percorriam as ruas da cidade, de casa em casa de amigos, numa visitação bem diferente de hoje em dia, com raras exceções.
Lembro da vitrine da Loja Estrela, com seu luminoso, de propriedade do seu Arno Michaelsen, e da Melita, a empregada da casa, vestida com uma roupa vermelha e máscara no rosto, andando em volta da loja, para animar as vendas.
Foi ali que descobri que Papai Noel também falava alemão!
Aquela figura de um velhinho bondoso de barbas brancas e que surgiu na Ásia Menor, no século X, era bem diferente, já nesta época de minha infância.

Mesmo assim, a gente queria conversar com ele, até não entendendo nada de alemão!
Mas por que será que ele não falava italiano? ( pensávamos nós quando pequenos ).

Tenho ainda a minha boneca de louça ( a Marilu ), ganha num destes Natais de minha infância e é impressionante ver como ela passou pelo tempo e se preservou intacta. Minha boneca não envelheceu. Exatamente como as minhas lembranças.

Gramado não tinha ainda o Natal Luz, quando Seu Antoninho Barbacovi era convidado a visitar as casas para a entrega dos presentes que as crianças haviam encomendado...

O Natal Luz, em 1986, veio a ser mais um evento comercial necessário e, por muitos anos, foi também uma forma diferente do gramadense se encontrar novamente nos Natais comunitários. Hoje, é um evento consagrado, mas muito distante dos Natais tradicionais de nossa formação cultural.

Mas os tempos mudam, é o que costumo ouvir.
Que bom se mudassem guardando as lembranças de tantos gramadenses que as têm para “dar e vender” !
Como salvar e resgatar estas formas tantas de nossas etnias comemorarem o Natal, se isto só vai gerar emoções?
E Gramado precisa sobreviver em meio ao turbilhão em que o mundo está envolvido...

Compete a cada um vivenciar o Natal que quer ter.
Lapidar o sonho que quer sonhar.
Ter o presente de Natal que encomendou a estes sonhos e buscou encontrar.
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