Tudo que é sólido desmancha no ar

Tudo que é sólido desmancha no ar é o título de um livro do escritor americano Marshall Berman. O título é em referencia a uma frase do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels.

"Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas".

O tema do livro de Berman é uma crítica histórica contendo análises sobre vários autores e suas épocas – desde o Fausto de Goethe, passando pelo 'Manifesto' de Marx e Engels, pelos poemas em prosa de Baudelaire e pela ficção de Dostoievski, até as vanguardas artísticas do século XX.

Uso esta introdução para referir algo que a pouco tempo era sólido e agora se esvai como fumaça no ar, o barril do petróleo.

Agora as grandes empresas do ramo petrolífero pagam para que o petróleo não lhes seja entregue, pois não tem mais onde estocar.

Vamos relembrar alguns fatos de décadas passadas do século XX.

Em 1973 em protesto pelo apoio prestado pelos Estados Unidos a Israel durante a Guerra do Yom Kippur, os países árabes organizados na OPEP aumentaram o preço do petróleo em mais de 400%. Em março de 1974, os preços nominais tinham subido de 3 para 12 dólares por barril (preços na época).

Em 1960, na cidade de Bagdá, os cinco principais produtores de petróleo (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela) fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A criação da OPEP foi uma forma de fazer frente a uma política de achatamento de preços praticada pelo cartel das grandes empresas petroleiras ocidentais – as chamada s "sete irmãs" (Standard Oil, Royal Dutch Shell, Mobil, Gulf, BP, Standard Oil of California, e Chevron). As sete irmãs controlavam a cotação do petróleo no mundo e impediam que novas explorações para descobertas de jazidas viessem a ocorrer.

Tanto que sobre o Brasil a pressão era enorme e somente pela pressão popular na campanha "O petróleo é nosso" fez com que o governo criasse em 1953 a Petrobrás, dando início a exploração no país.

Outras crises aconteceriam ainda no século passado que acabaram se refletindo no preço do barril de petróleo.

Começam em 1997 com o que se chamou de Crise Asiática que estourou pela flutuação da moeda tailandesa, o Bath, que se alastra por todos os países pertencentes à Ásia, então denominados os Tigres Asiáticos. Denominação alusiva ao crescimento econômico, que até então se verificava, quando se viu que tudo o que haviam recebido de empréstimos não cobriam os mesmos.

A Rússia, a maior produtora de petróleo e gás da Europa, com a queda dos preços internacionais em 1998 que chegou a US$ 12 o barril, não auferiu receita em moeda forte para honrar os seus compromissos externos. Só lhe restou decretar uma moratória. Ou seja, suspendia o pagamento dos empréstimos recebidos.

Agora surge outra crise e muito mais forte que as anteriores.

A acelerada queda no consumo de combustíveis fez com que a demanda fosse muitas vezes menor do que a oferta. Já falta local para armazenamento de petróleo.

Em mais uma sessão de derretimento dos preços, o petróleo fechou esta terça-feira, 21, em forte queda no mercado internacional. Foi causada pelo descompasso entre oferta e demanda em meio à pandemia de coronavírus e pela iminência de lotação dos estoques da commodity nos Estados Unidos. A crise no setor pressionou com força os contratos no exterior.

Nem a iniciativa da Opep e aliados em cortar a produção em 9,7 milhões de barris por dia, mostrou ser capaz em elevar os preços do barril.
Agora a organização admite que a demanda pelo produto deva cair em 6,8 milhões de barris por dia até o fim do ano.

Desta forma 2020 com o preço de US$ 66 por barril, caiu em março para US$ 22 e neste dia 21 chegou a ser negociado a US$ 8.

O mundo não será igual após este desastre econômico. Os que têm outras riquezas e conhecimento tecnológico irão aos poucos se recuperar, os que vivem apenas da exportação do petróleo terão problemas graves internamente.

Entre esses estou me referindo a vizinha Venezuela que faz alguns anos está em estado de penúria, só lhe restando a exportação de petróleo. Suas reservas em ouro já foram para a Rússia em passado recente.

Em 1998 com a queda nos preços do petróleo houve perda de receita na Venezuela e na época foi de tal magnitude, que o país chegou à beira convulsão social. Aquela situação permitiu a chegada logo a seguir do então coronel golpista, Hugo Chávez. Eleito, se beneficiou logo a seguir da retomada dos preços no mercado internacional.

Na ocasião fez com que os venezuelanos que lhe dessem perpetuidade de poder e o associaram a um messias que trouxe as benesses que voltavam a vivenciar. A razão estava na alta do petróleo, que chegou ao seu ápice de 140 dólares o barril.
Faz algum tempo que se diz em o barril cruzar para baixo a cotação de US$ 50 dólares, a situação começaria a se tornar crítica para o país. Afinal é o único bem que possui em sua pauta de exportações.

A OPEP a qual a Venezuela faz parte não está segurando os preços.

O valor do barril de petróleo era sólido, tanto que recebeu a alcunha de Ouro Negro. Mas, um dia Tudo que é sólido desmancha no ar.

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