Falta árvore, falta umidade e falta chuva enquanto no mar sobra temperatura e umidade. A água se condensa entre a secura do interior e a umidade do litoral e daí ocorrem as imagens das primeiras páginas dos jornais.
O parágrafo anterior é por enquanto um grande chute de minha parte, até que alguém estude os registros de chuvas nas diferentes regiões do país. De toda forma, conhecer o fenômeno não irá mudá-lo. Se for para resolver
o problema mandando mantimentos, já podemos nos planejar para mandar para Santa Catarina uma carga a cada dez anos. É bom prever também para Petrópolis e Rio Bonito no Rio e Vila Velha no Espírito Santo. Faça melhor; liste de uma vez todos lugares habitados do litoral. Com raríssimas exceções de um ou outro bairro chique, eles precisarão de ajuda durante as chuvas.
Quando se elegeu, o presidente disse que o nordeste tinha que adequar-se a sua condição natural como fazem os países frios. É um conceito válido para muitas outras situações. Talvez o único exemplo brasileiro de precaução seja a cidade de São Paulo, onde uma seqüência de prefeitos e governadores de diferentes partidos atacou o problema do alagamento em diferentes frentes.
Sem muita ajuda federal, aliás. Durante a semana, veio a público o estudo feito pela UFSC sobre o problema das chuvas. Já participei de vários do tipo. É um mundo de trabalho para depois ver que nada será feito porque o lugar onde se planejava uma
melhora é o curral eleitoral de um adversário político ou porque o dinheiro foi usado em alguma obra mais festiva do que evitar mortes no futuro.
Os governadores de Santa Catarina nos últimos 20 anos devem ser indiciados por homicídio culposo múltiplo. Está na hora de fazer nossos governantes responderem por decisões erradas. Está na hora de sentarem na cadeira dos réus para responder porque Santa Catarina não investiu o necessário em planejamento e remoção. A natureza de um lugar não pode ser mudada, ao contrário da dos seus governantes.
Somos bons de caridade mas ruins de planejamento (forma inteligente de caridade que ajuda as pessoas antes do mal acontecer). Enquanto render voto, continuaremos investindo em estádios de futebol para abrigar as vítimas ao invés de pensar primeiro em segurança.
Texto escrito por: Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva.