| | Campanha da Fraternidade aborda defesa da vida em meio aos debates sobre as pesquisas com células embrionárias |
Todos os anos, no Domingo de Ramos (uma semana antes da Páscoa), a Igreja Católica no Brasil realiza a coleta da Campanha da Fraternidade, contemplando algum projeto social. Índios, idosos, água e Amazônia foram alvo da campanha em anos anteriores. Em 2008, a Igreja defende o direito à vida.
Vigário da paróquia São Pedro de Gramado, desde janeiro de 2008, o padre brasiliense José Monteiro concedeu entrevista à GramadoSite.com sobre as pesquisas com células-tronco embrionárias. “Trata-se de uma questão melindrosa”, adianta o mestre em Bioética. Ele ainda acompanha as pesquisas de laboratórios internacionais, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, e cita entre eles o conceituado Instituto Kennedy, que é financiado pelo Vaticano.
Quando começa a vida
Algumas correntes científicas defendem que o embrião só pode ser considerado ser humano a partir do momento em que desenvolve a estrutura cerebral. Segundo Monteiro, esse é o argumento dos que defendem a liberação das pesquisas, ou seja, os embriões congelados, ainda não são pessoas. Porém, há outras correntes que creditam o começo da vida já ao momento da fecundação. “O que acontece é que nada foi comprovado. Não há como comprovar nem uma coisa nem outra, enquanto persiste o empate, para que arriscar?”, questiona.
“A sociedade gosta de colocar a Igreja contra a ciência, mas não se trata apenas de uma questão teológica, doutrinal, não há comprovação científica sobre o momento em que começa a vida humana e a ciência se baseia em dados comprovados”, argumenta. Monteiro considera que trabalhar em pesquisas com células-tronco adultas amenizaria o debate. “As células do cordão umbilical também seriam uma opção menos delicada, e possuem as mesmas características que as células-tronco embrionárias”, observa.
Não é garantia de milagre
Monteiro alerta para a forma como as pesquisas são apresentadas à sociedade, que ele define como “apoteótica”. “É como se a cura para todas as doenças dependesse das pesquisas com células-tronco embrionárias e isso é um engano, nenhum laboratório garante resultados positivos a curto prazo. A consolidação das pesquisas ainda vai demorar, a aprovação ou não dessas experimentações, neste momento, não é garantia de milagre”, avalia. O Brasil é um dos primeiros países a colocar essa matéria na sua legislação. “O mundo inteiro ainda está analisando o tema e o pioneirismo é sempre delicado, pois pode levar a decisões precipitadas”, diz.
Escolhe, pois, a vida
“Provavelmente a liberação da pesquisa sairá vitoriosa”, palpita o sacerdote. Ele elogiou a maneira como o STF levou o tema para o plenário, abrindo espaço para argumentos a favor e contra a pesquisa. Caso a liberação se confirme, o padre aposta na responsabilidade dos pais quanto à autonomia dos embriões. “Os embriões só poderão ser usados com autorização dos pais e eles podem não autorizar”, sugere.
A Campanha da Fraternidade 2008 tem como lema “Escolhe, pois, a vida” (Dt, 30, 19). De acordo com Monteiro, o tema (Fraternidade e Defesa da Vida) já estava planejado há anos e acabou coincidindo com este momento. “Não diria que foi coincidência, mas providência”, pondera. Sobre os novos "sete pecados capitais" divulgados recentemente pelo papa Bento XVI, que incluem a defesa da vida, padre Monteiro considera que a Igreja apenas trouxe o que aborda sua doutrina para uma linguagem contemporânea.
O debate
No dia 5 de março, o Supremo Tribunal Federal começou a julgar a liberação do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas. O julgamento foi interrompido porque o ministro Carlos Alberto Menezes Direito pediu vistas ao processo. As células-tronco podem se converter em qualquer tipo de tecido humano e são consideradas a grande esperança de tratamento para doenças como mal de Parkinson, mal de Alzheimer, diabetes, paralisia, entre outras enfermidades hoje incuráveis.
O que se discute no STF é a liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias, ou seja, que a legislação autorize a utilização de embriões oriundos de fertilizações in vitro, congelados há mais de três anos, nessas experiências. Porém, a dúvida sobre o momento em que começa a vida divide opiniões e impõe restrições às pesquisas. Apenas dois ministros votaram no dia 5 de março, ambos a favor das pesquisas. Faltam ainda nove votos e o STF tem 30 dias para dar continuidade ao processo. Trata-se do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3510, contra o artigo 5º da Lei de Biossegurança. |  | |