• São nove camadas de materiais para forjar. Em torno de uma semana para temperar o aço com perfeição. Trabalho estritamente artesanal, com controle de qualidade manual e unitário. Nenhuma faca é igual à outra, cada produto é exclusivo.

  • Até a Revolução Industrial, deflagrada na Inglaterra por volta de 1760, todas as lâminas existentes eram confeccionadas por artesãos. Eles trabalhavam solitários ou então se reuniam em pequenos grupos, muitas vezes nas próprias famílias. Há mais de um século, a família Burtett se dedica à arte da cutelaria e mantém um ateliê e ferramentaria na Serra Grande, localidade do interior de Gramado.

    Produzir facas, ferramentas e utensílios agrícolas de maneira artesanal era comum há séculos atrás. Na Serra Gaúcha, onde o terreno pedregoso e hostil foi sendo adaptado para os cultivos agrícolas e criação de animais, tornou-se quase que questão de sobrevivência a utilização de ferramentas de alta resistência, confiabilidade e durabilidade. O aperfeiçoamento das técnicas para esculpir o aço se transformou numa tradição.

  • Os primeiros registros da presença de um artesão cuteleiro no Brasil datam de 1532, quando o ferreiro português Bartolomeu Carrasco instalou sua oficina no litoral paulista. Os imigrantes europeus que se instalaram no interior de Gramado deixaram como herança as técnicas da cutelaria. Maciel Weber Burtett é um dos artesãos que mantém presentes os ensinamentos que recebeu dos antepassados.

  • Ao contrário das grandes indústrias, na ferramentaria dos Burtett as facas não são produzidas em série. Apesar da exigência constante de adaptar métodos modernos à tecnologia antiga, permanece ainda presente a premissa da produção unitária. O objeto final ganha uma característica própria, única, o que só é possível graças à produção manual. O resultado desse processo raramente é igualado pela fabricação industrial. É por isso que as facas artesanais são mais valorizadas.

  • O aço é levado ao rubro para ser forjado à marteladas, de modo a melhor aglutinar e refinar os materiais, além de moldar a peça. Depois de forjada, a lâmina precisa receber tratamento térmico, que inclui a têmpera (processo de aquecimento e resfriamento rápido, que proporciona maior dureza e resistência à lâmina) e revenimento (que consiste no reaquecimento da peça, em temperatura inferior à da têmpera, a fim de corrigir imperfeições que possam ter ficado da etapa anterior). Por fim, a lâmina é polida, para então receber uma empunhadura e a bainha adequada. O processo é lento e exige uma técnica aguçada.

  • Seja para uso nas tarefas do cotidiano, hobby, esportes, lides do campo ou pelo prazer de colecionar, as facas artesanais da Serra Grande têm sido procuradas por apreciadores da cutelaria do Brasil e do mundo. A faca de Damasco é uma raridade – e é sem dúvida o produto mais caro do mercado. Pudera, dada a complexidade de sua fabricação.

  • Para fazer uma faca dessas, o artesão pode levar até sete dias. Depende do clima, do acerto na forja, do controle de qualidade. O aço Damasco leva esse nome por ter se tornado conhecido na cidade do Oriente chamada Damasco, na época das Cruzadas, na Idade Média. Ele se constitui, tecnicamente, do caldeamento de dois ou mais tipos de aço de diferentes composições. Seu processo de fabricação dá elasticidade à lâmina e durabilidade ao fio. A faca de aço Damasco tem maior resistência à torção e tração se comparada às outras lâminas, produzidas com apenas um tipo de aço.

  • Burtett garante: quem conhece essa faca, não troca e paga o preço que ela vale. É uma raridade, uma peça exclusiva. Resultado de um processo artesanal, que vem sendo ensinado de geração em geração e ainda está presente no interior de Gramado.