República indecente

Economiaenegocios Artigos 16 Fevereiro / 2018 Sexta-feira por Senador Cristovam Buarque

Ainda que não houvesse correlação entre a abolição e a queda do império, o fato é que a República mantém até hoje privilégios legais, embora imorais, defendidos pelos que os recebem, tanto quanto os escravocratas defendiam seus direitos à posse dos escravos.

Legalidades indecentes persistem até hoje. O auxílio moradia para servidores públicos, por exemplo, não é roubo, não é propina. Mas ao ser legal esse benefício torna-se ainda mais imoral porque mostra uma República que legaliza privilégios.

Nas últimas semanas, temos visto a argumentação de respeitados juízes defendendo esses privilégios, incompatíveis com a decência republicana. Dizer que servem para compensar a falta de reajuste salarial é um argumento indecente para justificar o privilégio que trabalhador comum não recebe.

Nada justifica o parlamentar definir seu próprio salário 35 vezes maior que o salário mínimo recebido por seus eleitores e ainda forçar o eleitor a pagar o aluguel da sua casa. Com o salário que recebe, não há razão para juiz ou parlamentar não pagar o aluguel de sua moradia.

Esses privilégios legais estão corroendo a Democracia e a República. Até hoje é permitido acumular salário de parlamentar com aposentadorias, mesmo indo além do teto constitucional. Felizmente, alguns se recusaram a receber essas ajudas por fugirem à regra.

O senador Randolfe Rodrigues (REDE/AP) apresentou um projeto de lei acabando com o auxílio moradia. O deputado Pedro Cunha Lima (PSDB / PB) apresentou outro acabando com os carros chapas-branca que assolam a República, nos três Poderes. Esses são os mais visíveis dos privilégios legais, mas não são os únicos.

A sociedade brasileira se acostumou com o privilégio de que a educação dos filhos dos ricos deve ser melhor do que a educação dos filhos dos pobres, sem perceber que, além de indecente, essa desigualdade é estúpida por impedir o desenvolvimento do potencial dos cérebros de milhões de brasileiros.

Com isso, concentra a renda, impede o aumento da produtividade e da criatividade na economia, e insufla violência e desagrega a sociedade, reproduzindo o maldito sistema de privilégios legais que povoam a sociedade brasileira.







Categorias:   Notícias | Artigos | Economia e Negócios | Estilo | Cultura | Esportes