A abertura da Igreja é Cristológica e não Mundanizante

Economiaenegocios Artigos 11 Fevereiro / 2019 Segunda-feira por Padre Ari

Para as novas gerações é importante ter essa consciência missionária da presença da Igreja no contexto da sociedade contemporânea. Algo tem chamado à atenção de muitos grupos como leigos, sacerdotes,
religiosos e bispos ao fazer uma escolha paradoxal em relação àquilo que o Concílio Vaticano II propôs como meta para evangelizar as culturas epocais e ideologias que se opõem diametralmente opostas ao “Anúncio da Boa Nova do Evangelho”. .
O papa e teólogo Bento XVI, ao referir-se a essa questão, é enfático quando afirma que: “...a existência da Igreja deve-se ao fato que o próprio Deus se comunicou. E a ação de Cristo expressa essa busca de “mundanização” de Deus, pela qual estabeleceu com o mundo um diálogo {...} mas {a} abertura realizada em Cristo é entendida como “missio”=missão, que implica o anúncio ao mundo da Palavra divina na tentativa de integrá-lo no amor de Deus”. (cf. ASSUNÇÃO, Rudy Albino – 2018 – Paulus/Eclesiae – p.106).
Em contrapartida e de maneira surpreendente, ainda depois de mais de 50 anos da realização do Concílio Vaticano II, torna-se estranha à postura de muitos cristãos, sacerdotes e bispos, mas também de teólogos, salvo sempre as exceções, insistirem em fazer uma leitura da missão da Igreja em pleno século XXI remontando a linhas teológicas dos documentos que antecederam o Concílio Vaticano II. É possível talvez inferir dessa postura o retrato de medo para enfrentar as diversas e adversas ideologias anticristãs, muito em voga, na atualidade. Como também, salvo exceções, tratar-se da falta de preparo histórico, filosófico e teológico, daquilo que os faz optar pelo anúncio de Cristo nesse contexto atual da história contemporânea, em que muitas vezes está na contramão da verdadeira essência da fé cristã. Sempre ao longo da história tiveram grandes figuras que perceberam a necessidade de avançar no processo de enculturação, mas, sem nunca perder a essência da fé cristã.
De acordo com o sociólogo Assunção, que tentou fazer uma leitura mais minuciosa e realista da influência de Bento XVI teólogo e papa, que teve uma expressiva colaboração e influência na elaboração dos documentos do Concílio Vaticano II, ele mesmo, com muita firmeza e clareza em meio à efervescência daquele momento, colocou uma assertiva que ainda hoje fala para a contemporaneidade: “... há uma diferença enorme entre ‘abertura para o mundo’ e a ‘conformidade com o mesmo’. Ora, essa observação não deixa de ser uma referência para o hoje da história da teologia e da evangelização, ou seja, que os cristãos não se fechem em “guetos” e movimentos que petrificam o ‘anúncio’ numa redoma de apenas conservá-lo, mas que seja algo atuante para os novos tempos. O anúncio cristão não pode ser conservado dentro um “museu” para ser apreciado como algo do passado, mas, e, sobretudo, algo vivo para o nosso tempo.
O teólogo e papa Ratzinger nos aponta ainda algo interessante a partir dos textos do Vaticano II com uma nova subdivisão, aliás, de grande importância para os novos tempos e, que, deram um novo rosto da Igreja dentro de uma cultura “secularizante”. (obs: em outro momento falarei sobre esse termo que em muitas ocasiões foi feita uma leitura equivocada). Segundo Ratzinger, esses textos reconfiguraram algo novo no processo de evangelização na cultura pós-moderna que dividiu em duas classes:

1. Aqueles ligados à vida interna da Igreja.

2. Os documentos que estavam voltados para a dimensão externa da Igreja, e, que, sobretudo, tratam da abertura da Igreja como diálogo com o mundo exterior.

Então é bom conhecer estes documentos que fazem parte do grupo acima citados por Bento XVI. São eles:

a) Dignitatis Humanae (sobre a liberdade religiosa), “Nostra Aetate= Sobre as religiões não-cristãs. No entanto, ressalta com propriedade especial a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo “Gaudium et Spes”.
Outro aspecto relevante é que na época barroca a Igreja tinha uma relação negativa em relação à modernidade com o auge a partir do século XIX. Ora, o teólogo e papa Ratzinger se questionava se esse era realmente o caminho que se deveria dar seguimento para dialogar com o mundo.

Em contrapartida, embora Ratzinzer frisasse que a “Gaudium et Spes” tinha dado passos significativos, no entanto dizia ele: “...o encontro com os grandes temas da Idade Modena não se deu na grande constituição pastoral”. (apud Ratzinger, in Assunção p. 108) Mas ele irá abordar mais adiante sobre esse documento.
Pesquisando, meditando e estudando sobre a caminhada da Igreja no decorrer dos tempos, a gente começa a delinear algo importante para a fé de cada um ao se afirmar que é real e nobre dizer que: “A Igreja é santa e pecadora”. Percebe-se o esforço no longo da história a luta da Igreja para se manter fiel a missão dada por Jesus, e, os constantes ajustes do anúncio nas diversas culturas, muitas vezes com muito sacrifício e dor pelos erros. Mas enquanto estivermos no tempo será sempre assim essa dinâmica. Pessoalmente digo: É por isso que tenho uma paixão pela Igreja de Jesus. A Igreja é composta de pessoas, daí os avanços e recuos da fé na história para sempre se manter fiel ao Reino de Jesus. O mandato é sempre “Ide”. Uma Igreja que se apresenta como perfeita não é a verdadeira Igreja de Cristo, pois somente Deus é perfeito. Quando pessoas abandonam a Igreja pelas falhas cometidas internamente por ela, pode ser tudo, mas carece de uma autêntica espiritualidade e nunca amou esta Igreja, e, quem sabe, salvo exceções, nunca conheceu e amou essa Igreja que um dia lhe conferiu o batismo, mas, agora vira às costas a ela para justificar o injustificável.
O cristão verdadeiro e autêntico ele não acusa sua Igreja, mas, e, sobretudo a ama como ela é, e contribuindo para que ela sempre resplandeça, como se esforça para retratar o rosto de Jesus nessa sua Igreja, santa e pecadora.
Qual foi o objetivo mais importante que o saudoso papa São João XXIII queria do Concílio Vaticano II, convocado por ele?
“...o diálogo com o mundo, e, também era o ‘desejo dominante’ de Paulo VI, seu sucessor”. (cf. Assunção, 2018 p.110).
Outro destaque foi o teólogo e padre dominicano Ives Congar que foi perito do Concílio Vaticano II que afirmara: O documento “Gaudium et Spes” era a “Terra Prometida” do Concílio, assim como outros falavam em “obra prima”.


O DESAFIO CONSTANTE DA TEOLOGIA E DO ANÚNCIO CRISTÃO NO PROCESSO DE ENCULTURAÇÃO

Se por um lado, é de suma importância a enculturação do anúncio da Boa Nova, por outro, sempre é preciso ter clareza do que seja “essência” do anúncio, daquilo que é secundário e pode ser adaptado às culturas. Para exemplificar a questão da enculturação na diversidade cultural dos povos que compõe o gênero humano, é interessante dentre muitas que se poderia citar, verificar a enculturação do cristianismo no tempo da filosofia grega, quando muitos cristãos, tentaram de alguma forma para fugir dos mitos e superstições em voga, assumir o pensamento filosófico que não concordava com os mitos para explicar a vida. Nisso o uso da razão tornou-se uma forma de cristianizar a cultura da época. O sociólogo Max Weber, de forma magistral, orientando-se pela perspectiva protestante, cita Adolf Von Harnack (1851-1930), quando este “... defende o Bispo Atanásio de Alexandria (296-373 d.C) que teve um papel fundamental quando do seu debate com os filósofos helênicos de então, acerca do dogma trinitário, sobre a primazia da fé, e, assim evitou que a ela se dissolvesse na filosofia”. (cf. ibidem: Assunção, 2018 - p.50).
Seguindo o comentário de Assunção ao citar Weber, o mesmo diz: “...sem Atanásio a Igreja teria caído nas mãos da filosofia grega. Por isso, é com ele que se introduzia o “sacrifício do intelecto”.
É interessante a colocação de Max Weber, pois: “...a ciência não pode descobrir ou produzir {o} sentido das coisas, questiona-se sobre o estatuto da própria teologia que se entende por ciência. Embora o próprio Weber acrescenta que: “...teologia não é irracionalidade (afinal, há uma gradualidade da racionalidade), mas uma forma de racionalização da crença religiosa, em que a religião – neste caso de salvação – busca sistematizar a relação com Deus e com o Mundo”. (ibidem - p.51).
Weber diante desse binômio razão e fé infere que: “...toda a teologia (não só a cristã, portanto){afirma} que o mundo tem um sentido, o que a ciência não pode afirmar. Afinal, para a reflexão teológica há certas “revelações” que devem ser objeto de crença e devem ser colocadas para além dos domínios da ciência”. (ibidem).
Ao remontar no início do Cristianismo sabe-se do primeiro Concílio de Jerusalém, que dizia respeito se a Boa Nova era apenas para o povo eleito ou para todos. Então se vê que Pedro e Paulo, de alguma forma se estranharam no sentido positivo, embora Paulo fosse “apóstolo de segunda safra”, mas não foi por acaso que Jesus o chama como discípulo, aliás, que até hoje é conhecido como o apóstolo dos Gentios.
É bom ressaltar que: “...o racionalismo ético de matriz judaica não {foi} o que atraiu propriamente a propagação inicial da pregação cristã”. Sentiram que havia necessidade de buscar elementos que ajudasse aos que não conheciam a Jesus com outros fundamentos, sem perder a essência, aliás, esse sempre foi, é e será o desafio dos cristãos ao longo tempo, inserir-se nas culturas, mas, e, sobretudo, saber com conhecimento e vivência discernir com prudência e sabedoria o mistério salvífico.
Nesse sentido:“...Paulo foi fundamental para a expansão do cristianismo. A orientação da pregação de Jesus é mais sentimental se comparada à relação mais ético-racional de Paulo.”. (ibidem, p.53). O sociólogo Max Weber acrescenta que: “...a confiança em Deus, em Jesus, exige o sacrifício da confiança na própria força intelectual. Este anti-intelectualismo interior próprio do velho cristianismo “não deve ser entendido como renúncia voluntária do conhecimento nem como efeito de um ceticismo, mas antes como “expressão de uma posição supra intelectual e não de uma posição anti-intelectual daquela nova crença em Deus.

Observe-se a posição firme de Santo Atanásio na luta contra a maioria dos filósofos gregos da época {quando} impôs sua fórmula, pura e simplesmente absurda do ponto de vista racional, também para constrangê-los a um expresso sacrifício do intelecto e fixar um limite para a discussão racional.
“Não existe absolutamente nenhuma religião, por mais inacabada que esteja como potência de vida em ação, que não tenha tido que exigir num ponto qualquer, o ‘sacrifício do intelecto’”. (cf. Assunção, 55).
É nisso que Bento XVI adverte:
A Igreja não pode abrir-se de forma indiscriminada a um mundo prenhe de perigos.
Precisa de ajustes quanto à imprecisão da noção de abertura ao mundo.

Todo esse contexto envolvendo a Igreja de hoje e a pós-modernidade não significa que haja uma ruptura com a Tradição, mas exprime a sua vitalidade contínua. Por outro lado, a tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, a reforma e o Iluminismo. Segundo o teólogo e papa: “...uma Igreja aberta ao mundo {...}recria as suas melhores instâncias, uma Igreja renovada, uma Igreja ciosa de sua identidade, que tem nela a pré-condição de sua abertura. (continua)
É bom conhecer a caminhada da Igreja e pensar!

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