SENSO DE CULPA, UMA NECESSIDADE HUMANA: Lei Natural, Consciência e Justificação

É bem possível que possa causar certa perplexidade à cultura contemporânea ao ouvir essa afirmação, acima. No entanto, ela é de fundamental importância no resgate de uma nova e madura sociedade. Afinal, a mesma perdeu, no decorrer do tempo, o verdadeiro sentido de “verdade”, “consciência” e “lei natural”, e a ausência dessa clareza conceitual tem conduzido o tecido social local e, também, em nível mundial a “justificação” de condutas hediondas e trágicas.

O fato é que jamais, o tecido social dessa cultura vigente irá entender as tragédias dos últimos tempos e que chocou toda a sociedade tanto local quanto mundial, embora se tenha consciência que também houveram tais fatos num passado distante. Mas o que nos causa maior estranheza é que em pleno século XXI, com um progresso e desenvolvimento deslumbrante, ainda acontecem tais episódios. Supunha-se que houvesse um avanço não apenas na tecnologia de ponta, mas, e, sobretudo, na defesa da dignidade humana e um mundo mais equilibrado, consciente, justo inclusivo e feliz, com destaque na justiça social para todos.
No texto publicado próximo passado foi posto que: “...o emudecimento da voz da consciência em tantos âmbitos da vida é uma doença espiritual muito mais perigosa que a culpa que alguém ainda pode reconhecer”. (RATZINGER, Joseph – Bento XVI, papa – Ser cristão na Era neopag㠖 Ed. Ecclesiae – 2014 – p.92).
Não se pode duvidar que a sociedade hodierna tenha feito avanços significativos no que tange ao desenvolvimento tecnológico e de bem-estar facilitando a vida da humanidade, embora, e, paradoxalmente, nem todos tem acesso a tais benesses, o que leva a protestar tal situação, afinal não há nenhuma explicação convincente que justifique tal realidade. Entretanto é preciso frisar que a relativização do conceito de “Verdade Universal do Bem” tem sofrido um processo de subjetivação, o que impreterivelmente seguiu a uma visão da “consciência humana” para um “eu” como instância última da verdade. Ora, reduzir o conceito de “consciência objetiva” à subjetividade promove espaços significativos para justificar comportamentos dissonantes com o bom senso e, como abre caminho para as atrocidades que se tem presenciado nos últimos tempos, já que a verdade é reduzida ao “eu” e tudo que decide torna-se lei absoluta.

Outro aspecto que é preciso frisar, aliás, e esquecido por muitos pensadores hodiernos, é a questão da “lei natural”. Essa é uma marca indelével que está inscrita na intimidade do ser humano, no entanto, com o reducionismo do conceito de “verdade objetiva”, “ipso fato” há um obscurecimento da mesma e nega a “objetividade da verdade universal”. Infere-se daí que o afrouxamento dos princípios universais da verdade, da consciência e da lei natural emerge algo hediondo, aliás, muito bem exposto pelo psicólogo Albert Görres: “...são os monstros que, entre outros violentos, não têm senso de culpa {...} talvez os chefes da máfia não tenham sentimento de culpa, ou talvez {esteja} escondido no porão”.
É interessante frisar, partindo do ponto de vista bíblico, situações que clarificam essas deformações na atual sociedade. O primeiro episódio se encontra em (Lc 18,9-14) quando Jesus observa no interior do templo duas situações opostas, mas elucidativas: A oração do fariseu e do publicano. Por um lado, o fariseu com sua arrogância fez uma oração de justificação e do outro, o publicano, que batia no peito em sinal de humildade e reconhecimento da culpa. Jesus ante o episódio afirmou que o publicano saiu melhor do templo pela sua postura de reconhecer sua culpa, enquanto que o fariseu foi péssimo em sua conduta diante de Deus. O interessante nesse episódio bíblico é que: “...Jesus pode operar com sucesso nos pecadores, porque eles não se tornaram impermeáveis, por trás da consciência errônea, à mudança que Deus espera deles, como de cada um de nós. Ele não pode ter sucesso com os {“pseudos-justos”} porque eles pensam que não precisam de perdão e conversão. A consciência deles, não os acusa, mas os justificam”. (cf. ibidem p.93).
O teólogo e papa Ratzinger faz uma analogia com São Paulo em (Rm 2,1-16), quando Paulo afirma que “...os pagãos sabem muito bem o que Deus espera deles, mesmo sem terem lei”. Se lançarmos um olhar para a antropologia cultural, especialmente quando se trata dos povos “ágrafos = não letrados”, percebe-se que os mesmos possuem leis morais muito mais severas do que os ditos povos “civilizados”. Pergunta-se: De onde aprenderam tais normas e costumes? É a marca indelével dada pelo Criador, o “LOGOS”, a “Razão Criadora Primeira” da qual somos dependentes. Ratzinger diz: “...a teoria da salvação mediante a ignorância é derrubada por esse versículo: a verdade do Criador, que foi também escrita na Revelação da história da salvação. O homem pode ver a verdade de Deus por ser criatura. Não vê-la é pecado. Ela não é vista só, quando e porque não queremos vê-la. Essa recusa voluntária, que obstrui a consciência, é culposa. Por isso, se a luz não acende, é por causa de uma fuga deliberada daquilo que não queremos ver”. (RATZINGER, 2014, p.93) e segue:
“...nesta altura, podemos tirar as primeiras conclusões para responder à pergunta sobre a natureza da consciência: não é possível identificar a consciência do eu, com a certeza objetiva sobre si mesmo e o próprio comportamento moral. Essa certeza pode ser um mero reflexo do meio social e das opiniões nele difundidas {isso deriva} de uma falta de autocrítica, de uma incapacidade de escutar a profundidade do espírito.


APRENDER A LIÇÃO COM A HISTÓRIA RETROSPECTIVA, É POSTURA SÁBIA E PRUDENTE

A atual civilização, com essa cultura exuberante, promissora e bonita, tem que ter presente realidades de um passado já vivido e cujos resultados nem sempre tem sido edificantes. Embora, quando vista com humildade, se pode tirar profundas lições para construir um futuro sustentável, com base em princípios e valores que fazem do tecido social, local e mundial, perceber que é possível viver com prosperidade no progresso e no desenvolvimento nos diversos setores da sociedade, mas e, sobretudo, com senso de inclusão de todo o gênero humano, sem jamais prescindir do “LOGOS”= a razão criadora primeira, Deus.
O teólogo e papa Ratzinger relembrando a história retrospectiva e, não muito distante, constatou que: “...a queda dos regimes marxistas da Europa ocidental confirma esse diagnóstico. As personalidades mais nobres e atentas dos povos libertados falam de uma enorme devastação espiritual que se verificou no período da deformação intelectual. Elas apontam o obscurecimento do senso moral, que representa uma perda e um perigo bem mais grave que os danos econômicos. O novo patriarca de Moscou {de então} Aléxis II, denunciou de forma impressionante no início do seu ministério, em agosto de 1990: os homens que viveram em um sistema de mentira perderam a capacidade de perceber. A sociedade perdeu a capacidade de misericórdia e os sentimentos humanos se perderam. Toda uma geração perdeu para o bem e para as ações dignas do homem. A nossa tarefa é reconduzir a sociedade aos valores morais eternos, ou seja, desenvolver novamente no coração dos homens a audição quase perdida para ouvir a voz de Deus”. (ibidem, p.94).
A tendência, em muitas ocasiões da cultura contemporânea, se percebe que tende para esse subjetivismo moral e uma verdade diluída no “eu” que se torna uma arma mortal para uma sociedade que possui todos os mecanismos para ser feliz. Nenhuma ideologia, seja capitalista, comunista, sociais democracias, totalitaristas, ao fechar-se sobre si, tem a capacidade para focar a importância desse paradigma e de suas consequências, quando se trata de um contexto societário com base numa “consciência” desprovida do senso da “Verdade como bem universal”.
Sempre no processo de formação das novas gerações é necessário ter em conta que: “...o emudecimento da consciência leva à desumanização do mundo e a um perigo mortal”. Isso é a realidade que nos últimos tempos vem acontecendo em nossas comunidades, seja local ou em nível mundial. Afrouxam-se conceitos básicos para uma vida segura, aliás, segurança essa, que todos almejam e gritam para os governos. Mas, uma “gestão pública” que esteja preocupada com o poder pelo poder e em seus partidos e não no conjunto da sociedade, o resultado sempre será trágico. Se não focarem na educação para o homem como totalidade, e, centralizar a educação apenas na formação tecnológica das crianças e jovens, o resultado é desastroso. Infelizmente é bom ter presente que o mercado e o capital financeiro vigentes não estão preocupados com isso, pois são unidimensionais em seus objetivos e o que interessa é o “deus dinheiro”.
“...a identificação da consciência com o conhecimento superficial, com a redução do homem à sua subjetividade, não liberta, mas escraviza. Ela nos faz totalmente dependentes das opiniões dominantes e rebaixa o seu nível a cada dia”. Portanto: “...quem faz coincidir a consciência com as convicções pseudos-racional, formada de auto justificação, conformismo e preguiça {...} a consciência se degrada em mecanismo de desculpa {...} a redução da consciência à certeza subjetiva significa ao mesmo tempo a renúncia à verdade e...a renúncia à verdade, que aconteceu antes, agora se vinga, é a verdadeira culpa que mantém o homem em sua falsa segurança mas depois o abandona em um deserto sem estradas”. (ibidem)
É dentro desse contexto que a atual cultura necessita refletir e conduzir-nos aos diversos educandários, as crianças e jovens a um novo paradigma educacional, tendo em conta a totalidade da vida e não, apenas preocupar-se com a preparação de mão obra especializada para suprir a demanda do mercado e dos interesses das mega corporações econômicas. Salvar a nação não é apenas visar uma economia estável, mas, sim, ter presente a formação de cidadãos conscientes, livres e atuantes nas decisões importantes do país. É preciso deixar de fazer a população ser “massa de manobra” de políticos inescrupulosos e de ideologias perversas que trabalham apenas para os seus interesses e partidos, sem ter em conta a dignidade das pessoas, não somente em nível local, mas também mundial. Ter ciência que as ideologias podem ser úteis, mas jamais têm a última palavra sobre o homem e a mulher.
É bom pensar!