“ETHOS DA CIENTIFICIDADE”, vontade e determinação para obedecer à "verdade" (Texto VII)

O pano de fundo deste texto, para refletir parte de um pressuposto histórico e justificável, ou seja, de acordo com o teólogo e papa Ratzinger ao expor seu pensamento ele diz o seguinte: “...a convicção de que a fé da Igreja Primitiva se colocou na linha da filosofia grega primitiva, {a mesma opunha-se frontalmente} contra os mitos dominantes”. (apud Ratzinger – in Assunção, Rudi Albino – Bento XVI, a Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade” – Uma análise da visão do Papa teólogo sobre o “Mundo de Hoje” – Ed. Ecclesiae – 2018 – p.169).
Em contrapartida, sempre é bom recordar que os primeiros cristãos “...compreenderam-na como uma diluição da neblina da religião mitológica para deixar espaço à descoberta daquele Deus que é “Razão Criadora”, e, ao mesmo tempo, “Razão-Amor”.

É visto que o cristianismo primitivo sentiu a necessidade de inserir-se em categorias filosóficas de então, sem, contudo, identificar-se com as mesmas. Entretanto fica explícito que ao usar a metodologia helênica nesse contexto houve uma desmitologização da teologia que não deixou de ser uma defesa sábia do cristianismo, superando assim, a mitologia do politeísmo em curso.
Ao ler e refletir as obras de Ratzinger, é possível observar que em toda a exposição de sua teologia algo é fundamental e se define com lucidez, ou seja: “A noção do “LOGOS”, pois é ele que proporciona sustentação ao cristianismo como um todo: o Deus bíblico, como o Novo Testamento o descreve: é o “Logos”, é a “Razão Criadora” e que se comunica com a humanidade por meio do rosto de Jesus”. Essa ideia, na verdade, está já no AT, quando o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, por meio da “sarça ardente” se dirige a Moisés, declarando-se como “EU SOU”. (cf. ibidem pp.170-171).
O sociólogo Assunção expõe que essa atitude do período helênico da história de Israel não deixa de ser uma “espécie de iluminismo” ao tratar da rejeição dos deuses como obra de mãos humanas.
Outro aspecto que chama a atenção em toda essa reflexão trata do seguinte: Bento XVI, teólogo e papa, mostra que no interior da teologia houve um processo tentando dissociar a herança bíblica da grega, que é um reflexo de um processo maior de uma progressiva dissociação entre “fé e razão”.

Ora, o texto comentado pelo sociólogo Assunção, p.134, deixa claro a postura de avanço e recuo do teólogo e papa Ratzinger, que também ele, nesse embate de posições e hermenêuticas, percebeu a necessidade dessa variável de ‘avanço e recuo’, embora, e, sobretudo tem confirmado elementos do passado ao dar importância ao documento Syllabus e a Dignitatis Humanae como uma relação possível. Segundo ele, são duas aplicações distintas de um princípio que pertence ao “depositum fidei”.
Nas notas de rodapé do livro do sociólogo Assunção, p.146, faz uma menção significativa do pensamento e da preocupação de Ratzinger, quando afirma: “...a crítica de Ratzinger não é ao desenvolvimento científico em si, mas à sua radicalização filosófica: {porque} o homem {jamais pode} renunciar {e} buscar a verdade e, no seu lugar, permanecer apenas o interesse pela utilidade das coisas”. (cf. ibidem p.838 – in Assunção, 2018 – p.146). E assim ele retrata que segundo o teólogo e papa Ratzinger, tem sentido a questão da “razão com validade universal” {que} coincide com a razão cristã e insistindo que isso é possível. Assim se pode deduzir que ambas, ou seja, “razão e fé” podem se colocar numa postura de “limite e correção” mutuas. Isso abre caminho para um diálogo frutuoso posterior.

Outro aspecto a ser frisado nessa profunda reflexão trata-se da abertura do cristianismo através do documento “Nostra aetate”, quando refere-se ao povo judeu. Ratzinger, expõe três momentos da história das religiões:

a) a desmistificação das experiências primitivas,
b) as religiões míticas
c) a ruptura ou rejeição do mito. Quando trata da primeira refere-se à mística no qual o mito perde o seu caráter ilusório e se impõe a absolutização e o caráter inefável da mística. De acordo com o sociólogo Assunção, citando Ratzinger, é posto a possibilidade de ser conceituado como um caminho histórico-religioso que considera a experiência misteriosa, como uma posição que não admite nenhuma grandeza a ela sobreposta, mas considera como última realidade no âmbito religioso. Embora Ratzinger atribua a eles novos fundamentos, agora é explanado algo que não passa de símbolos do verdadeiro.

O que se percebe nessa desmistificação, segundo Ratzinger, é a revolução monoteísta e que ele aponta como a expressão clássica em Israel, que rejeita o mito como qualidade humana, afirmando-se o Absoluto do chamado divino, exemplificado pelos “profetas”. (fonte: ibidem – Assunção pp.147-148).
Ao ler todo esse contexto torna-se interessante o ponto de partida do teólogo e papa Ratzinger para chegar ao monoteísmo, onde de forma magistral fundamenta o “racional” na fé cristã, no entanto a raiz está justamente no judaísmo. É interessante frisar o caminho que ele percorre em seu pensamento para fundamentar a fé cristã como parte da razão. O que então ele quer mostrar ao leitor?
“...o tipo em que a revolução monoteísta se concretiza não é o místico, mas o profeta {...} o decisivo não é a identidade, mas estar diante do Deus que chama e ordena {...} os profetas veem em Javé a “Razão Criadora”. E nisso fica explícito ao teólogo e papa que “...a religião vai além de uma religião do povo {...} afinal ela representa uma exigência universal, onde a universalidade está ligada à racionalidade”. (cf. ibidem). E segue:
“Assim a crítica profética preparou o terreno para o universalismo cristão e também, o encontro entre os elementos grego e bíblico, depois tão defendido pelos Santos Padres”.

Toda essa parte histórica e crítica do teólogo e papa Ratzinger é de extrema importância para os ouvidos de alguns “pseudos intelectuais”, salvo sempre as grandes exceções, da cultura contemporânea, quando, em muitas ocasiões arrogam-se e pensam que possuem a última palavra diante do mistério da vida humana e do cosmo. Essa visão também questiona os paradigmas medíocres de uma “pseudociência” cultivada e defendida por alguns, em contraposição à “Verdade universal para o bem”. A pedagogia de Deus é fascinante ao se revelar paulatinamente a frente do decorrer no tempo da história da humanidade. No entanto, ainda continua se manifestando, e o ser humano agraciado com o dom da inteligência, fruto e presente de Deus (Gn 1,27), tem recebido o dom da inteligência, vontade e da liberdade. Por outro lado, tem o dever de avançar no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, pois é uma tarefa dada pela própria “Razão Criadora”= O “LOGOS”=Deus. Também tem legado, ao mesmo tempo, a responsabilidade ao humano de continuar a obra inacabável do cosmo, e, assim se justifica a pesquisa científica em todas as dimensões da vida, pois tem uma importância capital para toda a humanidade. Negar isso significa tornar-se omisso de sua tarefa recebida da “Razão Criadora primeira”. (Gn 1,28ss).

Em sintonia com a “Razão Criadora” a ciência se torna grande

É muito significativa a visão crítica e lúcida de Ratzinger, ao buscar uma resposta convencível ao tratar das bases que pudesse dar uma solidez filosófica, teológica e, por que não, sociológica e científica para esse binômio “Razão e Fé”. Ratzinger mostra que “...de fato, o tipo em que a revolução monoteísta se concretiza não é o místico, mas o profeta. Para este, o decisivo não é a identidade, mas estar diante do Deus que chama e ordena”. (apud ibidem, in Assunção). E segue:
“Os profetas veem em Javé a razão criadora e, para ele, {nesse} processo a religião vai além de uma religião do povo e representa uma exigência universal, onde a universalidade está ligada à racionalidade {...} assim, a crítica profética preparou o terreno para o universalismo cristão e, também, o encontro entre os elementos grego e bíblico, depois tão defendido pelos Santos Padres”.

É interessante perceber, “o caráter revolucionário da profecia, em contraste com a mística, realização pela contemplação e pela experiência da posse individual do sagrado, em que o indivíduo é um vaso do divino” A visão de profeta, é nessa visão Ratzingeriana, “um emissário, um instrumento divino, um revolucionário que opera rupturas com a religião, pois despreza o ritualismo sacerdotal, além de considerar como execráveis as práticas mágicas” (ibidem).Para melhor ilustrar a visão acima exposta, o teólogo e papa lança mão das palavras do sociólogo Pierre Felix Bourdieu, que tinha influência de Michel Foucault, Marx e Max Weber, que afirma nesse contexto a importância da eliminação do tabu, a relação puro/impuro – e evolui, com toda a força, para uma ética universal, fraternal, com sua poderosa noção de pecado.
(continua no próximo texto).