O Iluminismo Grego, o Profetismo de Israel e o Cristianismo (Texto VIII)

Nessa semana volta-se a refletir o pensamento de Joseph Ratzinger, teólogo e papa com a ajuda da análise brilhante do sociólogo Rudy Albino Assunção. O objetivo dessa pesquisa é entender a caminhada da Igreja e os obstáculos enfrentados desde o início da fé cristã, e que é algo que ainda preocupa a inserção contínua da fé cristã nos percalços da cultura moderna e pós-moderna.

O sociólogo Assunção mostra senso e habilidade apurada com visão crítica sobre o assunto “razão e fé”. Assunção percebe a profundidade do pensamento de Ratzinger quando esse expõe o seu pensamento, aliás, o que talvez para muitos não seja conhecido. A decisão de Ratzinger, teólogo e grande conhecedor dos bastidores e entraves internos da Igreja, de renunciar ao papado, certamente não por capricho pessoal, mas, conhecendo bem a realidade eclesial das mudanças urgentes, e por isso sentiu a dificuldade em levar adiante esse ministério “petrino” tomou a decisão corajosa, humilde e de grandeza de renunciar pelo bem da própria Igreja, como bem afirmou ao tomar essa decisão. Ele, que sendo teólogo e por muito tempo assessor de João Paulo II tinha consciência do enfrentamento da realidade “ad intra” e “ad destra”. É claro que como estudioso e pesquisador e com grande responsabilidade na condução da Igreja, tendo acompanhado as comissões pré-conciliares como nos debates pós-concílio, tinha, ele, muito “café no bule” para saber gerir as mudanças necessárias como as resistências a serem enfrentadas.

A importância de Ratzinger se percebe ao ler suas produções literárias, mormente na área da teologia, filosofia, sociologia e história; um pesquisador nato e incisivo como professor de teologia, bispo, cardeal e papa. A influência de Ratzinger na hermenêutica do Concílio Vaticano II aliás, é digno de admiração e respeito, e, sem dúvida, algo marcante, até pela capacidade de análise minuciosa e habilidade intelectiva ao percorrer os mais variados meandros dos debates quando se tratava das hermenêuticas em curso.
Chama a atenção o pressentimento e a agilidade de Ratzinger ao visualizar o documento “Gaudium et Spes”, que já era um avanço, entretanto, para fazer uma ruptura positiva com posições de Concílios anteriores era necessário, segundo ele, os outros dois documentos que abririam um amplo campo para o diálogo com o mundo em geral, o Dignitatis Humanae e Nostra aetate.
A leitura e análise dos escritos de Ratzinger, elaborada pelo sociólogo Assunção, retrata a preocupação em seu caminho de ressaltar “...o papel desmistificador (rompimento com o mito) com o judaísmo e, por conseguinte, do cristianismo), p.149. Por quê?
Tanto o judaísmo como o cristianismo se viram aliados à razão, dos movimentos de ilustração (de iluminismo) ao longo da história. Afinal, visto na ótica de Ratzinger teólogo e papa, ele percebeu um “veio” de eliminação de mitos e de deuses, inseridos nas culturas politeístas que viviam ao redor do judaísmo, e nisso, a cultura grega ao valorizar a “razão” como algo significativo, indiretamente descobriu nessa metodologia helênica resposta às questões teológicas da fé cristã, embora, e, sobretudo, deve ficar claro ao leitor que essa estratégia não significou assumir a filosofia grega e deixar a fé cristã se diluir na mesma. O exemplo já citado contra essa tendência foi a reação de Atanásio de Alexandria (296-373 d.c) quando se tratou do “Mistério da Trindade”, ou seja, enfrentou os filósofos gregos e falou do “sacrifício do intelecto” de certas verdades, pois nem tudo pode ser visto e analisado sob a ótica e a lógica da razão pura.

A desmistificação é a revolução cuja raiz se encontra no Judaísmo

No texto VII, da semana próxima passada, segundo o teólogo e papa Ratzinger, ele frisou a figura do “profeta” no AT, que focava a “absolutização do chamado divino”, e, esta atitude do profetismo foi revolucionária, pois rompia com a religião, o ritualismo e outras práticas religiosas e remeteu à “Razão Universal Criadora” como instância última da história. Portanto é preciso frisar que tal conduta é a autêntica novidade. Por quê? “...Javé, o Deus de Israel, não é um “numenen” local, mas pessoal; ele é o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, o Deus dos Pais (Patriarcas)”. (apud Ratzinger – in Assunção, 2018 – p.149). E segue:
“...o Deus de Israel não é uma força que remete à fecundidade da natureza nem uma manifestação do mistério por trás do mundo. Ele não é um Deus cuja atividade se restringiria ao Templo de Jerusalém; nem mesmo é o Deus da Terra Prometida: {e isso em que implica na prática} “...o paradoxo da religião de Israel consiste justamente no fato de este povo ter como Deus nacional exatamente o Deus do Universo, pois o Deus nacional de Israel não é efetivamente um Deus nacional, {veja então caro leitor o que segue e deve nos fazer pensar} Israel adora o Absoluto com um Absoluto pessoal e assim se distingue e vence historicamente o politeísmo”. (id ibidem)
Esse paradigma exposto pelo teólogo e papa Ratzinger rompe com qualquer possibilidade de admitir o politeísmo e se comunicar com o Absoluto. Infere-se daí o que o Evangelho de São João narra no Prólogo: “...No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por Ele e sem Ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida e a vida era a luz dos homens. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1-18). Portanto a fé dos judeus {mostra que} o próprio Absoluto se lhe dirige a Palavra.
É digno de frisar a posição teológica de Ratzinger em relação ao judaísmo, embora dá para entender a insistência dele no Concílio Vaticano II, pois além de valorizar o documento “Gaudium et Spes”, aliás, que já era um avanço no diálogo com o mundo moderno, ele teve um olhar bem além da “Gaudium”, no entanto na visão dele era importante e tornaria completo o diálogo com a modernidade acrescentando o documento Dignitatis Humanae sobre o valor das religiões e o Nostra aetate em relação ao diálogo com o judaísmo. Por quê?
“...O Judaísmo {exerceu} uma função extremamente importante no mundo antigo, que, no momento da crise dos deuses, apresentava-se como a “religião racional”, a religião verdadeira não tinha sido dada por filósofos; nascida da luz divina e que correspondia às aspirações racionais do período de sua emergência. Israel só pode adorar a Deus e não a vários deuses e, por isso, deve rejeitá-los veementemente. A fé no Deus único, criador do universo pelo poder de sua Palavra, não tolera a piedosa aparência de mitos”. (apud Ratzinger – 1985, p.408 – in Assunção –p.150).
Outro aspecto interessante nessa reflexão é como o teólogo e papa Ratzinger “costura” com habilidade a questão do “iluminismo grego”, porque no entender dele, “...o mito aparece como forma de conhecimento pré-científico, no entanto, conclui que o pensamento grego impõe absolutez do conhecimento racional, {por outro lado} a religião perde também seu significado, mantendo apenas seu valor formal, como um cerimonial político, orientado para a “pólis””. (apud – ibidem)
Concluindo esse texto VIII, percebe-se que o “iluminismo grego e moderno”, segundo explanação do sociólogo Assunção ao fazer suas as palavras de Ratzinger, ele dá um destaque que “...a terceira forma de superação do mito, também nutre a convicção de que há outros períodos de ilustração e, neles, o abandono de valores e deuses”. (cf. Assunção – p.151). Observa-se então que essa realidade não é um “fenômeno exclusivo da idade moderna”.

É bom frisar que a posição de Ratzinger ao valorizar o “caráter racional do judaísmo no quadro das religiões de seu tempo, mostra que realizava um papel de racionalização como fez a filosofia grega”.

O sociólogo Assunção com muita clareza aponta que: “...na visão de Ratzinger {especificamente essa racionalização} da fé monoteísta judaica prepara o que, na visão do teólogo e papa Ratzinger {afirma} ser seu legado para a fé cristã, quando a herança bíblica e a herança grega encontraram uma síntese mais completa no cristianismo”. (ibidem).
Esses textos e suas análises certamente aguçam e provocam a tendência de paradigmas da ciência moderna e pós-moderna como a tecnologia da cultura contemporânea a pensar com mais cautela em relação ao tema “razão e fé”. Refiro-me a muitos ditos “intelectuais” como tantos ditos “cientistas”, ressalvando sempre as grandes exceções, para indagar com mais prudência, conhecimento histórico, filosófico, o verdadeiro fundamento da “Verdade” que procede da “Razão Universal Criadora Primeira”, que é a “Verdade última do Universo”= Verdade Universal do bem”. Nada provém do caos. Portanto:
O que não parte dessa premissa, aliás, é a “Verdade Universal do Bem”, seguindo o silogismo terá sempre uma conclusão falsa da realidade.
Em contrapartida falta para muitos pesquisadores, ressalvando sempre as grandes exceções, a seriedade nas pesquisas científicas com a meta constante de encontrar a “Verdade”, sem a mesma, a tendência é chegar a uma transcendência imanente, ou seja, o Reino do homem voltado a si mesmo e ensimesmado no próprio progresso. Tudo é provisoriedade enquanto se está inserido no tempo e no espaço. (continua)