MISTÉRIO DA PAIXÃO, MORTE E RESSURREIÇÃO: Como vivenciá-lo numa cultura diluída sobre si mesma?

O desafio que os cristãos inseridos numa cultura dispersiva e sem referência como a modernidade e pós-modernidade e cujo sentido último é voltado a uma transcendência imanente, exige no hoje da história mais do que nunca da parte dos cristãos, uma fé profunda e arraigada numa espiritualidade cujo centro é a “Verdade”.

No entanto ao se falar da “Verdade” esbarra-se justamente na ferida dessa cultura niilista, aliás, através de uma postura de autossuficiência recusando assim de auto-analisar que se desviou da “Razão Universal Criadora Primeira”. Essa, por sua vez ao criar o ser humano, legou a inteligência a vontade e a liberdade.
A arrogância do ser humano em querer trazer para si a decisão última sobre a existência e, fascinado pelos seus próprios inventos, assenhorou-se convictamente de que possui o domínio do “todo” do mistério da vida. Essa atitude foi o “pecado original”, fruto da liberdade dada pela “Razão Universal Primeira” de “cuidar” da Casa Comum (Gn,1,28ss). O humano recebeu a missão de “administrar” e fazê-la cada vez mais bonita, realidade esta, que mostra que há um sentido teológico na tecnologia retratada no progresso e no desenvolvimento como algo que provém de Deus, no entanto, os seres humanos, em sua arrogância recusou e ainda hoje, tem ainda recusado, salvo sempre as exceções, de cumprir a tarefa de complementar a obra da Criação mostrando assim, a falta de humildade e reconhecer agradecendo tão grande dom recebido de Deus Pai.
Sempre afirmo que Deus tem paixão e amor pelo ser humano, mesmo que tenha dado às costas. Por esta razão Deus procurou paulatinamente oferecer nova amizade com aquele que foi criado à sua “imagem e semelhança”. Então, através de um longo caminho atravessando séculos, Deus prepara o resgate daquilo que foi rompido pela soberba humana e em nome da liberdade. Retrospectivamente percebem-se quantos transtornos tem acontecido ao longo desse caminho. Apesar de tudo, vê-se ainda hoje nesse período da modernidade e pós-modernidade, sem prescindir de outras fases da história, uma visão equivocada da vida, incrustada nessa cultura que insiste em olhar somente para si mesma, envaidecida pelo progresso e o desenvolvimento, embora lamentavelmente todos sentem na atualidade um desconforto generalizado no tecido social.
A tecnologia é fascinante e bela, no entanto, isso não nos dá o direito de viver uma conduta de insensatez e embriaguez diante do presente dado pelo Criador, ou seja, a graça da inteligência humana. Jamais se pode esquecer de que a mesma provém da “Razão Criadora Universal do Bem”, que é a autêntica “Verdade”. Prescindir dessa consciência é arbitrariedade e orgulho. O ser humano necessita reaprender a virtude da humildade e, mesmo diante de um progresso maravilhoso da tecnologia, saber-se agradecido ante a Providência de Deus.
Nesse contexto histórico é bom frisar a necessidade dos cristãos de repensar o próprio agir, afinal o “cosmos” não é fruto do “acaso”, mas de um amor que procede da “Razão Criadora Primeira”. Infere-se daí que ciência e fé são compatíveis e devem se complementar. A ciência jamais terá a última palavra sobre a existência, pois sempre é provisoriedade. É uma grandeza, mas nunca absoluta, pois sempre deve estar vinculada à “Razão Criadora Primeira” que é a “Verdade Objetiva” que se conceitua como “Verdade Universal para o Bem”: Deus.
Cada ser humano, em especial todos os que trabalham na pesquisa científica, pesquisadores, filósofos, teólogos e os cientistas nas diversas áreas do conhecimento precisam ter consciência de buscar a “verdade” em suas investigações, embora sempre numa postura de humildade, sem arrogância, afinal isso é grandeza de conduta e, assim a ciência cada vez avança, mas com os pés no chão. Muitas descobertas ainda hão de vir à tona e se manifestar, entretanto, jamais irá se esgotar, pois a mesma sempre é provisoriedade.


A CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO DA PÁSCOA HOJE

Todos os anos a Igreja celebra esse grande “Mistério da Páscoa da Ressurreição”. No entanto, isso não
pode se resumir a simples rituais, mas exige um olhar mais aguçado fundamentado numa espiritualidade que supera o simples raciocínio. A cultura moderna e pós-moderna sente dificuldade em captar o sentido profundo desse evento que é histórico, e, ao mesmo tempo, ultrapassa a própria história.
O Evangelho de São João fala de três festas de Páscoa que Jesus celebrou durante o período de sua vida pública.

a) A primeira {foi} quando se deu a purificação do templo (2,13-15).
b) A segunda na multiplicação dos pães (6,4) e por último p. ex.12,1; 13,1 que se tornou a “sua” grande Páscoa, na qual se fundamenta a festa cristã, a Páscoa dos cristãos.
(fonte: RATZINGER, Bento XVI – Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição – Ed. Planeta – 2011 p.15).
O destaque no caminho de Jesus na temporalidade trata-se da ruptura dos conceitos vigentes na época, de “Messias”, aliás, tal realidade ainda hoje se percebe que muitos cristãos e não cristãos ainda trazem dúvidas a respeito. Talvez haja um acento maior, embora sem prescindir as dúvidas dos primeiros cristãos e das épocas posteriores a questão de Jesus como Deus e Homem. O fato é que a pesquisa contemporânea de muitos cientistas, salvo exceções, está muito voltada para uma visão estritamente lógica e da verificabilidade e isso obstrui a capacidade de ver além do factível. Talvez se faça necessário as palavras de Atanásio de Alexandria (296-373 d.C), quando em debate com os filósofos gregos falava em “sacrifício do intelecto” para inserir-se no grande Mistério Cristão da Ressurreição de Jesus. A pesquisa científica autêntica necessita dessa grandeza de sempre olhar para a “Razão Criadora Primeira” que impreterivelmente irá conduzir a ciência a uma harmonia com o Absoluto, sem prescindir da pesquisa.
Ao se ler a narração de todos os profetas do AT e os evangelistas do NT com atenção, observa-se que o anúncio de muitos episódios sobre Jesus não corresponderam às expectativas humanas em relação à vinda do “Messias”. Muitos acontecimentos desconcertaram os Judeus, mas também os cristãos ao longo da história do cristianismo.
O povo da época em relação ao profeta de Nazaré “...tinham ouvido falar qualquer coisa, mas parecia não ter relevância para Jerusalém, {não} não era conhecido. A multidão, que na periferia da cidade, prestava homenagem a Jesus não {foi} a mesma que depois haveria de pedir a sua crucificação”. (RATZINGER, - 2011 – p.21). Nesse aspecto dá para entender o documento Nostra aetate (sobre os judeus) do Concílio Vaticano II, pois, levou a Igreja a tirar a culpabilidade do povo judeu pela morte de Jesus, pois o episódio de fundo tratava-se dos sacerdotes, escribas, doutores da lei, o ódio pela expulsão do templo e dos cambistas, aliás, alguns autores afirmar ter sido a gota d’água para condenação de Jesus e tantos outros fatos que mexeram com o ódio dos grandes da época. Não é de estranhar também hoje situações semelhantes. Se pararmos para observar a realidade da Igreja, acontece algo parecido, que, ao mexer com os grandes e poderosos deste mundo contrariando suas metas, objetivos e interesses, aliás, que normalmente estão voltados ao dinheiro, é fácil concluir o significativo número de cristãos assassinados pelo simples fato de optar pela “Verdade” que é Cristo o Senhor.
O próprio evangelista João afirma que os discípulos só foram compreender os acontecimentos da Paixão Morte e Ressurreição de Jesus em toda a sua profundidade após a Ressurreição. No entanto, é preciso ressaltar que tal memória foi iluminada pelo Espírito Santo, da comunidade dos discípulos, ou seja, a Igreja.


E A RESSURREIÇÃO DE JESUS!

“Se Cristo não ressuscitou, então é vá a nossa pregação, é a vossa fé”. (1 Cor 15,14-15). Paulo destaca com firmeza a importância que a fé na ressurreição de Cristo tem para a mensagem cristã no seu conjunto: é o fundamento. Qual é o sentido da Ressurreição?
“...somente se Jesus ressuscitou aconteceu algo de verdadeiramente novo, que muda o mundo e a situação do homem. Então, Ele, Jesus, torna-Se o critério no qual podemos fiar-nos; porquanto então Deus manifestou-Se verdadeiramente”.
(ibidem p.218).
É importante ressaltar que: “...a ressurreição é um acontecimento dentro da história que, todavia, rompe o âmbito da história e a ultrapassa {isso} nos pode abri um acesso à compreensão. {...} podemos considerar a ressurreição como uma espécie de salto radical de qualidade em que se entreabre uma nova dimensão da vida de ser homem. {...} a própria matéria é transformada num novo gênero de realidade. Agora o homem Jesus, precisamente com o seu próprio corpo, pertence totalmente à esfera do divino, do eterno {...} só agora existe o lugar onde a sua alma imortal encontra o espaço, aquela “corporeidade”, na qual a imortalidade recebe sentido como comunhão com Deus e com toda a humanidade reconciliada. (ibidem p.244) E segue:
Quando falam do corpo cósmico de Cristo, indicando assim que o corpo transformado d’Ele é também o lugar onde os homens entram em comunhão com Deus e entre si e, desse modo, podem viver definitivamente na plenitude da vida indestrutível {...} dado que nós mesmos não possuímos qualquer experiência de tal gênero renovado e transformado de materialidade e de vida, não devemos maravilhar-nos se isso ultrapassa aquilo que podemos imaginar. (ibidem p.245).
Outro aspecto fascinante nessa reflexão é que: “...o essencial é o dado de que, com a ressurreição de Jesus, não foi revitalizado um indivíduo qualquer, morto num determinado momento, mas na ressurreição, verificou-se um salto ontológico que toca o ser como tal; foi inaugurada uma dimensão que nos interessa a todos, e que criou para todos nós um novo âmbito da vida, o estar com Deus.
Para concluir é preciso ainda frisar o seguinte: “...é preciso afrontar a questão a cerca da ressurreição como acontecimento histórico {...} a essência da ressurreição está precisamente no fato de que ela rompe a história e inaugura uma nova dimensão que, habitualmente, chamamos “dimensão escatológica”. A ressurreição descerra o espaço novo que a abre a história para além de si mesma e cria o definitivo. Nesse sentido, é verdade que a ressurreição não é um acontecimento histórico do mesmo gênero que o nascimento ou crucificação de Jesus. É algo novo, um gênero novo de acontecimento.
É preciso não esquecer que ela não está simplesmente fora ou acima da história {...} como erupção para fora da história e para além dela, a ressurreição tem, contudo, o seu início na própria história e até certo ponto pertence a ela. Finalmente é possível afirmar: a ressurreição de Jesus ultrapassa a história, mas deixou o seu rastro na história. Por isso pode ser atestada por testemunhas como um acontecimento de qualidade completamente nova. (fonte: ibidem)
O teólogo e papa Ratzinger afirma algo interessante que deve nos fazer pensar, ou seja: “...É próprio do mistério de Deus agir desse modo suave. Só pouco a pouco é que Ele constrói na grande história da humanidade a sua história. Torna-Se homem, mas de modo a poder ser ignorado pelos contemporâneos, pelas forças respeitáveis da história. Padece e morre, e, como Ressuscitado, quer chegar à humanidade apenas através da fé dos seus, aos quais Se manifesta. Sem cessar Ele bate suavemente às portas dos nossos corações e, se Lhe abrirmos, lentamente vai nos tornar capazes de “ver”. É bom refletir!