As escolas neoliberais sempre prescrevem mais mercado e menos estado

O processo histórico do neoliberalismo é um fenômeno que exige clareza conceitual e prático para compreendê-lo, como também para desmitificar o jogo que permeia a subjacência de tal ideologia, aliás, tão incrustada e internalizada no imaginário da cultura contemporânea.

Para a surpresa de muitos há no processo da ideologia neoliberal algo que se espalha sob uma bandeira com vários caminhos, não somente em termos de economia e de mercado, mas também quando se trata das questões sociais. Na prática, para um bom e crítico observador, percebe-se a sutileza com que essa ideologia transita na cultura hodierna, e, que em geral passa despercebida por uma significativa maioria do tecido social. No entanto, essa realidade deve nos fazer pensar, pois silenciosamente e sem alardes tramita dentro desse paradigma uma concepção de mundo que é preciso saber fazer a leitura dessa ideologia, pois: “...a forma de governo democrático {acaba} tornando-se apenas um meio para um fim. {Por outro lado} os gurus dessa doutrina têm o cuidado de manter preso o debate sobre a dicotomia Estado- Mercado”. (BIAGINI, Hugo E. – PEICHEAUX, Diego-Fernández – O Neuroliberalismo e a Ética do mais forte – Ed. Nova Harmonia – Nova Petrópolis – 2016 – p.79).
Ora isso significa que essa ideologia não deixa de ser um sistema de amarração segundo o “molde de corporações ou megacorporações”. O que se infere disso?
“...o resto dos sujeitos tem de aceitar humildemente a ser controlado e posto a trabalhar para gerar a base da reprodução do sistema”. (ibidem p.79). É claro, e, sem dúvida que tudo isso é pensado, pesado e medido. Há uma lógica que sempre é comandada pelo livre mercado e o insaciável capital financeiro. Outro aspecto a ser levado em consideração é quando:
Os filósofos argentinos Biagini e Peycheaux apontam o seguinte: “...na idade moderna, já não se converte os sem-teto em trabalhadores”, e digo mais, tal conduta no comportamento do mercado e do capital financeiro frente aos pobres, os excluídos da sociedade por razões óbvias são marginalizados de tal forma que são considerados as “sobras”, aliás, que não interessa ao mercado, nem para ser escravos. Vê-se, portanto, que na atualidade se pode frisar que tal paradigma torna-se “arte” e um jogo linguístico muito usado pelo sistema neoliberal, e, quando necessário, com formas diferentes assim como um camaleão, a fim de atingir as metas e objetivos últimos do mercado.
Ora, visto sob esse ângulo a pessoa humana é prescindida de sua dignidade. Em contrapartida o ser humano se torna um objeto e/ou mercadoria para os interesses do livre mercado. Pois nos bastidores sempre aparecem as diversas corporações e megacorporações transnacionais que, sem nenhum escrúpulo, ultrapassam as fronteiras. Isso tem levado a termo o fenômeno da “globalização” que paulatinamente também vai tomando forma, incorporando no “globalismo”, ou seja, às questões de ordem política, e, assim são forçados a responder aos interesses dessas organizações sádicas e inescrupulosas.

Hoje a linguagem em uso do neoliberalismo vem sendo substituída pelo neologismo “neuroliberalismo”. De acordo com os autores acima citados esse paradigma ideológico tem como “...objetivo principal {...} perturbar os homens e mulheres a exercer a sua própria alienação insaciável”. Portanto, sob esta ótica tal realidade significa que tudo tem referência ao “consumo”, embora seja bom frisar que isso acontece através do mecanismo do marketing. O sujeito é induzido ao supérfluo, realidade esta, que conduz o tecido social a uma crise de identidade e de sentido. Daí emerge “...o uso da máscara cínica das grandes corporações e megacorporações transnacionais.


AS ESTRUTURAS TRANSNACIONAIS E SUA INFLUÊNCIA NO ESTADO E NA ECONOMIA LOCAL

Não há como conduzir um país para uma situação de justiça social se, o Estado vive atrelado e subjugado ao próprio mercado e do capital financeiro. A questão sempre é lembrar e trazer à tona com transparência que: “...o problema não é o dinheiro, e sim a lógica institucional, as formas de gestão e de controle”. (DOWBOR, Ladislau – A Reprodução Social – Política Econômica e Social: os desafios do Brasil – Vol. II – Vozes – 2003 – p. 114). Há muitos recursos no país, sim, no entanto, “mal direcionados, mal geridos e mal utilizados”.
Continuo insistindo na ideia que há em nosso país “...pessoas bem intencionadas e com poder formal {embora}, não conseguem resultados. Nesse aspecto percebe-se o quanto é necessário “...avaliar de forma mais ampla os mecanismos de decisão e a dimensão institucional do problema”. (ibidem p.142). Por quê?
Sem dúvida que “...os grupos dominantes do país, coincidem com as grandes fortunas, e, {estes} são profundamente retrógados e dificultam o progresso real no país {...} não é à toa que somos hoje o país com a distribuição de renda mais injusta do mundo, e não há soluções viáveis na área do conhecimento, hoje principal motor da modernização, quando se reduz dois terços da população a mais completa miséria”. (ibidem). Daí a necessidade de fazer uma análise profunda desse imaginário que ronda constantemente o Construto Político Socioeconômico vigente.
Fica claro que este sistema neoliberal, hoje, transmutado com o neologismo linguístico de “neuroliberalismo” tem “...restrição em ações estatais para buscar um resultado óbvio: evitar a tradução do poder político para a esfera econômica. O uso da violência política para fins econômicos é impedido por remover completamente o Estado do mercado. Por isso é bom clarear criticamente quando a “...economia afeta o dilema do mesmo e {então tudo é resolvido} politicamente de forma idêntica. A verdade é que “...as diversas escolas internas do neoliberalismo diferem em vários aspectos em relação ao modo de realizar essa separação entre o mercado e a política {...} mas se em algo se sucedem é na necessidade de retirar o Estado de suas funções de prestadores de serviços”. (BIAGINI-PEYCAUX, p.82). Como se explica essa questão:
O que de fato o neoliberalismo espera, e usando de muitos mecanismos, é para satisfazer seus objetivos fazendo um reducionismo onde: “...a função estatal deva se limitar a garantir a ordem básica da competição. Ora, “...ao restringir esse ordenamento a uma defesa negativa da liberdade, convertem o mercado em princípio ordenador da sociedade”. O curioso nesse imaginário é que elementos como “...a inflação, o desemprego, a baixa eficiência na produção de bens e serviços, a alteração da competição, as externalidades negativas como a contaminação ou a pobreza, não são falhas do mercado, mas resultado de uma intromissão exógena”. (ibidem).
O interessante é que os gurus dessa ideologia têm a ousadia de afirmar que muitos desses problemas não são econômicos, mas políticos. Por outro lado, “...as prescrições político-econômicas do neoliberalismo minimizam o papel desempenhado por megacorporações ou empresas na estruturação do mercado, ou a definição de políticas públicas. Essas organizações têm a sua própria estrutura transnacional que lhes permite agir independentemente do mercado e do Estado.
A configuração transnacional desses recursos fornece, por sua vez, a oportunidade de evitar os regulamentos do governo local. {...} ora, o custo de manutenção de tal comportamento nos aumentos de médio prazo, têm sua própria rede que lhes dá competitividade para impor o seu ponto de vista sobre o mercado ou os benefícios do Estado. Conduta que não está oculta, mas justifica e legitima interromper critérios de decisão sociais. (continua).

É bom refletir criticamente sobre essas situações em curso!