O materialismo é uma insanidade e um descompasso da própria identidade do ser humano

A ideologia do “ter” é uma realidade muito marcante na cultura pós-moderna. Como se o acúmulo de riquezas e bens em geral fosse o objetivo último da vida humana estivesse ancorada nas coisas e não “ser”.

Observa-se que esse paradigma criou uma crosta cultural e, cada vez mais e vem cegando a humanidade a ponto de desenvolver no tecido social uma situação de disfunção psicológica, cujo resultado é o vazio e o niilismo da vida. Não é de estranhar tantas pessoas desorientadas, com tendências suicidas, principalmente entre as novas gerações, embora não somente entre esses, mas também entre adultos, idosos, estes, se sentem abandonados e sobras nesse contexto do “ter”.
O desenvolvimento deste imaginário no decorrer do tempo é devido a ideologias reducionistas da natureza antropológica. Quando o ser humano é tratado dentro de um contexto de fragmentação há sempre uma disfunção social em todos os aspectos da vida humana, e inevitavelmente conduz as pessoas a perderem a razão de “ser”, ou seja, o sentido da própria existência para a qual fomos criados. É preciso relembrar que o progresso e o desenvolvimento têm um fundamento teológico (Gn 1,28ss), mas, e, sobretudo, que isso não quer significar ser dono absoluto das benesses fruto da inteligência humana recebida na própria criação (Gn 1,27), quando Deus nos diz que somos criados à sua imagem e semelhança, ou seja, da “Razão Criadora Universal do bem= Deus”.
Dentro desse contexto é importante salientar a contribuição do pensamento de Gilbert Keith Chesterton. Quem foi ele?
Foi um escritor, poeta, filósofo, dramaturgo, jornalista, palestrante, teólogo, biógrafo, literário e crítico da arte inglês. Nasceu em maio de 1874 e faleceu em 14 de junho de 1936. Casado com Frances Blogg em 1901. Inicialmente era de confissão anglicana, embora mais tarde considerasse o anglicanismo como uma “imitação pálida”. Em 1922 entro em plena comunhão com a Igreja Católica. Sua adolescência foi marcada pelo agnosticismo. Apesar de uma fase árida espiritual, ele se opunha aos discursos dos materialistas e espiritualistas, que ora criticavam o cristianismo por ser muito pessimista, ora por ser muito otimista. Foi amigo e parceiro do Cardeal John Henri Newman, também vindo do anglicanismo. No livro dele publicado sob o título “Ortodoxia” dedicou um capítulo intitulado “Paradoxos do cristianismo” ele faz interessantes observações em relação ao materialismo e outras tendências. Diz ele:
“...os modernos são levados a aceitar explicações reducionistas da vida {...} o materialismo é demasiado pequeno para caber no mundo real, o mundo que experimentamos”. (op.cit Chesterton – in Wiker, Benjamin – 10 livros que todo conservador deve ler – Mais quatro imperdíveis e um impostor – Ed. Vide Editorial – 1016 p.40).
É interessante observar a crítica mordaz que Chesterton faz ao levar em consideração os vários aspectos que fundamentam as ideologias, aliás, que sempre são visões parciais da verdade, e, que, como consequências na praticidade existencial, tem conduzido o contexto da cultura pós-moderna ao caos geral, até porque esta tem se desvinculada da grande “Razão Criadora Universal do Bem = Deus”.
Quando Chesterton aborda a questão do materialismo afirma: “...o materialismo é demasiado pequeno para caber no mundo real, o mundo como experimentamos, se, este, {...} leva a uma visão marxista de reduzir todas as facetas da experiência humana para a economia; ou a visão darwinista de reduzir tudo a genética e a sobrevivência do mais apto; ou a visão científica moderna que nós não sentimos amor; ou que nós sentimos amor realmente, mas {através de} uma série de reações químicas que chamamos amor; ou que não pensamos, mas realmente obedecemos aos ditames dos nossos cérebros geneticamente programados {...} percebe-se que ele não tem nenhuma dúvida em dizer que é uma visão estreita e uma simplicidade insana. (ibidem p.42).
Se a sociedade contemporânea está vivendo paulatinamente um processo de desintegração, não se tem dúvida que o materialismo é a fatídica redução da realidade, mormente a humana aos aspectos físicos da ciência. É saudável fazer uma análise retrospectiva do contexto da história de muitas ideologias que ceifaram milhões de vida que se pode concordar com a visão crítica de Chesterton, ou seja:
“...os marxistas quando descobriram que os seres humanos não atenderiam ao materialismo dialéticos, eles cortaram os inimigos de classe que não se encaixavam; os seguidores de Hitler quando encontraram grupos que falharam nos teste genéticos da aptidão, eles mandaram para a câmera de gás. Hoje, as nossas leis materialistas refletem uma crença de que a vida humana no útero é meramente “material” biológico, e se for inconveniente, então pode ser eliminado”. (WICKER, 2016 p.41).
No livro que publiquei em 2018 com o título: A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro, tenho um capítulo na (p.31) em que afirmo: “O século XX deixou mais ruínas sociais do que novas construções”. Nesse, afirmo: “...faz-se necessário reconstruir todas as instituições sociais e colocá-las a serviço da subjetivação dos atores e da salvaguarda da terra, e não mais do lucro”(op.cit –TOURAINE, Alain – Após a Crise – Vozes, 2011 p.).E segue:
“{...} cada qual sente que a dificuldade é imensa e o fracasso muito provável, mas também que os termos {...} indicam a única solução para uma crise que vai além do funcionamento da economia, já que ela se produziu num mundo onde todos os vínculos entre economia e sociedade foi rompida pela globalização de uma economia que ninguém consegue controlar”.

A visão que se depara ante a realidade acima citada sobre a vida humana pode-se dizer que: “...o materialismo nega a base espiritual da qual essa abundância nasce”. Sem nenhum escrúpulo pode-se dizer que o materialismo muito presente em nossa cultura contemporânea é uma espécie de “simplicidade insana”. Por outro lado, a raiz disso tudo é o desejo louvável de certeza racional, realizado com orgulho em vez de humildade. Toda vez que a razão humana se desvincula da “Razão Criadora Universal do Bem” para a barbárie é um passo. Por quê?
“...o materialismo reduz o homem a um ser físico sem alma, sem qualquer tipo de responsabilidade divina, sem qualquer valor inerente”


A EXISTÊNCIA HUMANA É UM DOM DO CRIADOR E O MATERIALISMO DESTRÓI SUA DIGNIDADE

A vida é um mistério profundo e jamais qualquer ciência conseguirá apreender e compreender a profundidade da mesma. Não se pode esquecer que “...o século XX foi o século mais sangrento da história da humanidade, e foi marcado por líderes implacáveis cheios de uma terrível autoconfiança que suas ideias materialistas – da qual o marxismo foi a vertente dominante – iriam curar tudo o que aflige a humanidade”. (WIKER, Benjamin – 2016 p.42). Curiosamente quando o ser humano se desvincula da grande “Razão Criadora Universal do Bem” leva os humanos a não ter mais dúvidas, mas {tendo} certeza de tudo, e, isso, é mortal. A chave para uma vida sadia diz Chesterton, “...é perceber que vivemos um mundo maior do que podemos compreender. Nossas vidas todos os dias são uma descarga cheia de mistério”. (op.cit – Wiker).
É bom frisar as consequências práticas da ideologia Iluminista, pois no final de tudo, esta, acabou num ceticismo. Friedrich Niestzche proclamou a morte de Deus, declarou também que a razão é apenas uma máscara para o poder, e todo o poder é o resultado da busca irracional do arbítrio. Outros pensadores tem afirmado que não há uma verdade objetiva. Marxistas pregavam que todo o pensamento é apenas reflexo dos modos de produção materiais. Segundo Chertenton: “...o intelecto humano é livre para destruir a si mesmo”. É a loucura de {nosso} tempo, afinal “...loucura pode ser definida como a utilização da atividade mental a fim de chegar à impotência mental”. O erro dos racionalistas modernos é que não conseguiram entender e não conseguirão que: “...razão é em si uma questão de fé”.

Observem que ‘a busca da certeza’, ou seja, ideologia que através do racionalismo exacerbado, reduziu a realidade a uma mera concatenação de causas puramente materiais que, por causa de sua simplicidade bruta, a mente humana poderia facilmente entende’. Na verdade tal contexto isso não deixa de ser a característica dos sofistas da Grécia antiga, como é dos liberais hoje. Então observem que o liberalismo é a casa política dos céticos e racionalistas, aliás, que se sentem tão confortáveis com um governo burocrático e centralizado. Os liberais veem o homem como massa a ser transformada em algo diferente do que ele é. Na verdade isso, não deixa de ser um desastre para a dignidade do ser humano, porque todos se tornam reféns do capital financeiro. Isto é cruel e desumano. Poucas pessoas se dão conta do perigo que é o capitalismo neoliberal econômico, o socialismo e o comunismo. São ideologias que obstruem o desenvolvimento de um humanismo sustentável e justo. É interessante como Chesterton define o materialismo ao declarar: “...ele arruína a moralidade de duas maneiras, ou seja, nega que temos livre-arbítrio e nos liberta dos limites morais para buscar todos os prazeres físicos”, ora, do ponto de vista do seu mundo juntamente com a previsibilidade mecânica negando o livre-arbítrio no seu mundo. É simplesmente uma loucura.
Concluo o texto de hoje com uma colocação de Chesterton quando afirma: “...o perigo reside não no ambiente do homem, mas no homem. A visão materialista é errada não só nisso, mas em reconhecer o perigo das riquezas, pois “...um homem {quando} depende dos luxos da vida é um homem corrupto, corrupto espiritual, politicamente e corrupto financeiramente”. Só o cristianismo é que pode “oferecer qualquer objeção racional” a uma oligarquia dos ricos. O valor moral sustenta um homem, naquilo que está em si mesmo, no que ele faz e não em suas posses ou seus bens materiais. Embora, diga-se de passagem, mas com determinação, que a solução não está nem no socialismo, nem no capitalismo neoliberal, e, muito menos no comunismo, pois a experiência do século XX retratou muito bem o fracasso destas ideologias e não têm respondido à justiça social. Economia de livre mercado, sim, mas que tenha a preocupação de servir o ser humano e como fim último à justiça social. Aqui entra em cena a Escola Austríaca de livre mercado sob o protagonismo de Ludwig Van Mises, Murray Brodbart, e outros. Está mais que claro que a Escola de economia de livre mercado segundo a Escola de Chicago, não serve para a resolução da América Latina e de promover o bem estar de todos, pois é o capital financeiro que gira em torno de si mesmo, ou seja, é o “eficientismo econômico” que gira em torno de si próprio dinheiro. Fica explícito que a meta fazer “caixa” em detrimento das necessidades básicas dos cidadãos. Se o Brasil não mudar sua linha de economia de mercado, está fadado ao fracasso e levando milhões de brasileiros ao desespero. Compreende-se então, que a política econômica adotada, faz mais propaganda de que está crescendo, embora os fatos não correspondem. É bom acordar da ilusão desse modelo econômico. Tudo tem aumentado, a carne e outros quesitos básicos para alimentação do tecido social. O crescimento econômico não é real e sim, uma manobra política distorcida e mentirosa. As medidas que foram aplicadas no contexto da nação, continuam a privilegiar os que já possuem um bom nível de vida, mas a pobreza e a desigualdade está cada vez pior. É ridículo e vergonhoso que o país tenha tirado recursos financeiros para o fundo eleitoral em detrimento da saúde, da educação e outros setores importantes da sociedade. Espera-se que todo o cidadão tenha essa consciência crítica para o próximo pleito. Que projetos concretos é que a nação através de seus gestores, salvo sempre as exceções, têm para uma mudança de paradigma? Há perspectivas de uma igualdade social em médio e longo prazo? Quais as metas e projetos que vai alavancar o país no estado em se encontra?
É bom se perguntar!

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