O materialismo histórico não é uma teoria, mas uma falsificação da história
(Eric Voegelin)

No artigo próximo passado abordei a questão do materialismo como uma insanidade e um descompasso da própria identidade do ser humano ao frisar a incoerência da conduta de muitas pessoas, como o desconhecimento do seu próprio ser.

Quando o foco da atividade humana fixa seu olhar para a imanência histórica as consequências na praticidade da existência “ipso fato” conduz a uma visão míope e trágica do próprio destino da humanidade. Portanto, é necessário sempre novamente se questionar qual o lugar em que homens e mulheres de hoje estão se colocando no cosmo?
Pois os mesmos em nível não apenas local, mas também mundial parece que o mundo hodierno vem nos retratando que há muito mais retrocessos em termos de humanidade, apesar da uma tecnologia e desenvolvimento de ponta, do que um aumento do senso de justiça e respeito pela dignidade humana.
Em outros termos: retrata um imaginário de uma civilização decante, obscurecida pela lógica do ter e pelo orgulho de que sabe tudo através do conhecimento científico. Por outro lado, em que a política socioeconômica e as religiões estão acrescentando ao tecido social para uma vida com sentido?
Para ajudar a uma reflexão crítica sobre o engessamento desse materialismo crasso na cultura contemporânea, escolhi um pensador do século XX, aliás, que pouco ou quase nada se aborda nos Centros de estudos acadêmicos de nossas Universidades. Chama-se Eric Voegelin. Este foi um dos pensadores mais originais do século XX, filósofo e político de incomparável erudição, principalmente quando tratam da filosofia política, história e filosofia da consciência.
O Papa Francisco tem chamado à atenção de duas grandes ideologias e/ou heresias que tem penetrado profundamente no imaginário da cultura de hoje, mas, e, sobretudo também, no pensamento cristão da contemporaneidade, aliás, consequência proveniente de séculos passados, mas que novamente e através da vertente ideológica Iluminista emergiu com força e se petrificou no imaginário do atual pensamento, também na teologia. São eles: o gnosticismo e o pelagianismo.
Eric Voegelin foi um crítico mordaz do gnosticismo e do neo-pelagianismo em suas diversas formas, inclusive das concepções políticas e dos movimentos revolucionários. Alemão naturalizado americano. Influenciou muito a filosofia, a ciência política e a teologia. Graduado também em Direito pela Universidade de Viena e ali, doutorou-se em Ciência Política, orientado por Othmar Spann e Hans Kelsen. Este último, por sua vez foi um dos mais notários juristas da história recente, autor da Constituição Austríaca de 1920 e o principal nome do positivismo do qual Eric Voegelin se tornara um feroz opositor.
Também cabe destacar sua amizade com Frederich Hayek, aliás, que foi vencedor do Prêmio Nobel em Economia. Além desses teve uma ligação de amizade com Alfred Schütz (um dos mais importantes filósofos das ciências sociais do século passado). Fundou o Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Munique e ocupou a Cátedra que pertencera antes, a Max Weber.
Talvez algum leitor se pergunte o porquê do destaque para a biografia destes autores. Sim, penso que o questionamento é pertinente e legítimo. No entanto há um objetivo claro e proposital na subjacência disso, ou seja, retratar ao leitor uma realidade que, de certa maneira, mostra como a vida e a história não são retilíneas, pois de tempos em tempos aparecem situações “cíclicas da história” que as novas gerações e outros, ressalvando sempre as exceções, e líderes da atualidade que vem assumindo posturas que já num passado longínquo ou não, tem novamente vindo à tona com ideologias e conceitos que já se supunha superados, mas que surpreendentemente estão de volta novamente.
Pensadores sensatos e atentos da atualidade percebem que no curso da história recente, se defrontam com doutrinas ou concepções de mundo e de história que não são estranhas, e, que praticamente em nada acrescentam ao tecido social, embora, e, sobretudo, já circularam num passado nem tão longínquo, cujos resultados não deram os frutos esperados. Hoje aí estão desenvolvendo situações conflituosas, aliás, já conhecidas, no que diz respeito à formação de um mundo novo e sustentável sob todos os pontos de vista. Parecem sombras que de tempos em tempos entram novamente no contexto societário e, com consequências trágicas.

A CRISE DE SENTIDO QUE AFETA A ATUAL CULTURA COM TRAÇOS DE FRAGMENTAÇÃO DO TODO, PREOCUPA.

Já no artigo sobre o materialismo publicado a duas semanas próxima passadas citava a visão de Chesterton sobre essa dimensão de reduzir tudo a uma transcendência imanente, justamente que é o foco da ideologia materialista. É interessante ver a visão dele quando afirma: “...é sempre fácil deixar a vida mudar a sua cabeça; o difícil é manter a sua própria cabeça”. (op.cit – Chesterton – in Wiker p.55).
Ora, é exatamente aqui que Eric Voegelin faz sua crítica: “...a nossa era foi-nos ordenado a perder a cabeça; nós chegamos a uma visão atrófica do homem e da ciência, para não falar do mundo e da política, que, por sua vez, gerou e legitimou uma violência política sem precedentes”. Partindo deste pressuposto, Voegelin quer nos mostrar onde está a chave para se compreender a violência política do século XX, e, nos diz com todas as palavras que o termo “ciência”, tem sido pervertido pelo materialismo no positivismo. Qual o argumento em que ele fundamenta essa assertiva? Ao conceituar a ideologia positivista. Para ele: “...positivismo é a negação sistemática de tudo além de nossos sentidos, algo que não pode ser medido cientificamente”. (ibidem p.56).
Já Chesterton havia enfrentado o positivismo, por este não permitir enxergar o mundo brilhante do senso comum. Por isso, partindo dessa assertiva infere o seguinte: “...você não pode medir o amor cientificamente (sem reduzi-lo a reações químicas no cérebro, como não é possível medir cientificamente a devoção familiar (sem reduzi-la a algum tipo de explicação darwiniana, nem reduzir a importância das ideias a menos que você as reduza a disparos de sinapses no cérebro”. (ibidem p.56). Na verdade, o que fica claro é que há uma desconsideração pelas verdades elementares que são próprias do senso comum, ou seja, aquilo que é óbvio.
Neste aspecto Aristóteles tem toda a razão quando diz que “...a ciência começa da existência pré-científica do homem, da sua participação no mundo com seu corpo, alma, intelecto e espírito. Portanto o objetivo da ciência é explicar a realidade como nós a experimentamos, e não diminuí-la pela explicação. Talvez, ressalvando sempre as exceções, muitos dos ditos intelectuais contemporâneos necessitam de um bom exame de consciência, abdicando ou repensando suas pseudos sabedorias para alinhar o próprio pensamento da pós-modernidade, aliás, que não deixa de ser uma crassa desvinculação da “Grande Razão Criadora Universal do bem”, e retornar a se colocar no seu verdadeiro lugar. Sempre nesse momento levo em consideração a expressão de Albert Einstein quando afirma: “ A pouco ciência afasta de Deus, a muita ciência aproxima de Deus”.
O Construto Político Socioeconômico da atual cultura está a exigir um novo paradigma em relação às ciências, à política e às organizações institucionais do tecido social. Por quê?
“...nossa vida política deve representar nossa plena humanidade e reconhecer que o homem “se encontra aberto para a realidade transcendental”, que ele encontra “sua verdadeira natureza através da constatação de sua verdadeira relação com Deus”. (op. cit. Aristóteles in Wicker p.58).
Esta é uma realidade tão humana que vamos encontrar essa forma de expor o pensamento nos pagãos, como Platão e Aristóteles. Wicker ao comentar tal realidade afirma e se expressa assim: “...é algo tão maravilhosamente divino que é levado a um ponto dramático no judaísmo e no cristianismo”. (ibidem). E segue: “...a abertura para o divino é fundamental e definitiva para a natureza humana e, portanto, para a política humana politicamente corretamente entendida {...}, ou seja, ironicamente o próprio ateu comprova esta abertura como fundamental e definitiva ao afirmar que a mais importante realização do homem é a demonstração científica de que Deus não existe. Ele percebe que a existência ou não-existência de Deus é a questão sobre a qual todo o nosso modo de vida deve se basear. A diferença é que ele exclui a experiência de Deus, afirmando – e não provando – que nada, apenas a matéria existe. E Wicker conclui seu pensamento quando diz: aquele que afirma ser ateu “...fecha a sua alma ao divino negando que ele tem uma alma que poderia ser aberta”. (continua).


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