Utopias Políticas são ao mesmo tempo Heréticas e Impossíveis

O ser humano, mormente a cultura pós-moderna necessita cultivar sempre mais a virtude da humildade, ou seja, ter consciência que é preciso prescindir da autossuficiência e soberba pelo simples fato de ter acesso através da ciência ao conhecimento, pois, este não possui fim em si mesmo, e, muito menos é “Verdade última da vida humana”.

Por outro lado, é importante salientar que os filósofos gregos, de modo especial Platão e Aristóteles sempre reconheceram que “...a abertura da alma ao divino {...} é uma verdade fundamental”.

Para os judeus a política foi algo prática, embora precária, pois a mesma foi construída sobre a Revelação de Deus de que eles eram uma nação. Em contrapartida, com o cristianismo a Revelação de Deus tornou-se “homem” (corpo, intelecto, alma e espírito) e foi estendida para o mundo, embora sem expressão política, até a conversão de Constantino. Nesta Revelação cristã já havia acontecido o grande Mistério da Encarnação de Deus na história humana. Entretanto sob o ponto de vista histórico, é bom frisar que os primeiros cristãos entraram em conflito direto com o Império Romano por recusarem a adorar o Imperador como um ser divino.

Se por outro, a racionalidade grega colaborou para mostrar que o cristianismo tem um princípio racional, esse é um aspecto importante no contexto em curso, pois retrata como os primeiros cristãos tinham consciência de que a razão humana estava subordinada à grande “Razão Criadora Universal do Bem”, realidade esta que jamais se devia ousar a se desvincular da mesma. Portanto, o pensamento da pós-modernidade traça sua dimensão do pensar ao cometer o erro crasso de se desvincular justamente desta Razão Criadora Universal do Bem, relativizando tudo no “eu”, o que se denomina de “transcendência imanente”. Com a ideologia levada ao extremo de um racionalismo exacerbado e absoluto, o pensamento da pós-modernidade se declara autossuficiente, afinal nessa postura há a declaração explícita de que a ciência, a política e o progresso não se sentem mais vinculados à grande “Razão Criadora Universal do Bem”, mas se torna independente e voltando-se sobre si mesma.
Partindo desse pressuposto e desta lógica, emerge a figura de Eric Voegelin com sua análise crítica e objetiva contra essa pretensão da cultura atual em colocar a ciência e o desenvolvimento como resposta última da existência humana, assim como o Estado e a política como fim último do tecido social.


QUAL O FUNDAMENTO DO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO, MORMENTE O OCIDENTAL, PARA EXIGIR UMA AUTONOMIA ABSOLUTA?

“A filosofia romana {sem dúvida} foi a filosofia grega feita para o Estado”. (Voegelin).
Partindo desse pressuposto é possível deduzir e clarear vários elementos que a atual sociedade vive; afinal o ocidente tem uma marca profunda desse imaginário, também respingando em termos eclesiais. Tomo a liberdade de expor alguns tópicos que possui sua vertente nesta afirmação.
Se a filosofia foi feita para servir o Estado, significa que enquanto ela respondesse aos interesses do mesmo, a filosofia era boa, contanto que ela deixasse as pessoas mais obedientes e respeitadoras, e conhecerem as necessidades políticas do Império. Pergunta-se: Não se percebe algo semelhante hoje, em relação à filosofia, sociologia e outras ciências humanas sendo dizimadas da formação dos acadêmicos nas Universidades? É mera coincidência ou não? A verdade é que não se quer pessoas que pensem, mas, pessoas passivas e conformadas com o “status quo”.
Pela mesma razão, os romanos declararam que estava tudo bem com a religião, desde que não fosse longe demais; isto é, enquanto servia o Estado, e não perturbasse o “status quo”. Hoje também se acusa a Igreja de que não deve se meter nas questões sociais, nas injustiças, na desigualdade e na política. É mera coincidência?
A verdade maior era a verdade política, e, assim tanto a religião quanto a filosofia deviam se contentar em ser “criadas” úteis. Qualquer coisa que contrariasse a ordem política devia ser impiedosamente removida. Foi assim que, depois de murmurar: “O que é a Verdade”? Pilatos ordenou a crucificação de Cristo.
Santo Agostinho que viveu entre os séculos IV E V presenciou a queda dos imperadores como também do grande Império Romano. Portanto é bom sempre se lembrar da provisoriedade do mundo das coisas, e, no entanto ainda em pleno século XXI, há muita gente que age como se nunca tivesse um fim. “...o nosso anseio por Deus, nosso desejo de uma paz duradoura, a nossa busca por uma ordem política que finalmente represente e preencha a humanidade, só pode ser realizado em outro mundo, em um Reino sobrenatural bastante diferente” (WIKER, Benjamin – VIDE Editorial 2016 p.59).
No entanto, precisamos ser realistas, ou seja, “...pode haver regimes políticos melhores ou piores neste mundo, {...} mas a história humana, por si só, nunca será outra coisa senão a ascensão e queda, a vida e a morte, fluxo e refluxo, progresso e diminuição de um regime político após o outro, até que Deus crie um novo céu e uma nova terra, e com ela um novo Reino. A história profana não está indo a lugar nenhum”. (ibidem). Então, de acordo com Voegelin deve ficar muito claro de que “...somente a história transcendental, incluindo a peregrinação terrena da Igreja {é que se dirige} para o seu cumprimento escatológico”.
Santo Agostinho é muito feliz quando diz que qualquer regime político deste mundo é uma categoria secundária. E Voegelin acrescenta: “...o destino espiritual do homem no sentido cristão não pode ser representado na terra pelo poder da organização da sociedade política; apenas pela Igreja”. Esta é a preocupação atual da Igreja, aliás, muito bem exposta pelo papa Francisco ao rebater os vícios e poderes acima dos ensinamentos de Jesus, Deus e homem verdadeiro. Carece da parte de muitos cristãos, sacerdotes, bispos, diáconos, religiosos (as) uma conduta de simplicidade e humildade, salvo sempre as exceções, atitudes estas que retratam os gestos com o rosto da Igreja de Jesus Cristo.
A Igreja deve se preocupar em ser coerente com a mensagem de Jesus, de que aqui precisamos construir juntos um mundo de fraternidade, de amor e de esperança escatológica, e, não se fixar no mundo das coisas. O levante e as críticas contra o Papa Francisco, é porque ele mexe com feridas que estão muito presentes no imaginário de bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, ressalvando sempre as exceções, que se apegam aos bens materiais e esquecem a missão da Igreja de Jesus no mundo dos homens. “...prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (op. cit EA, 49 – in Silva, Ari Antônio – A Ética nasce quando encontro o Rosto do Outro – Ed. Nova Harmonia- 2018 pp.24-25).
Em contrapartida, Voegelin argumenta também que “...não podemos compreender corretamente o caráter destrutivo da utopia do século XX a menos que compreendamos a natureza de uma antiga e particular heresia cristã, o gnosticismo”.


O RETORNO DE UMA ANTIGA HERESIA CRISTÃ MUITO VIVA NO IMAGINÁRIO DE MUITOS, TAMBÉM DE CRISTÃOS ATUAIS

Sempre é bom olhar a história retrospectiva para entender questões que no hoje da realidade novamente estão presentes. Já no início do cristianismo os gnósticos antigos subverteram o cristianismo, afirmando que havia duas divindades, o Deus do Antigo Testamento, e o bom Deus do Novo Testamento, que estava tentando arrebatar almas humanas puras do cativeiro material. Seres humanos eram, puramente, seres espirituais aprisionados em corpos maus, e Jesus Cristo não era Deus feito homem, mas um espírito puro enviado para resgatar os eleitos. Eles receberam de Jesus Cristo um conhecimento especial (em grego, gnosis) de todo o plano redentor. Era tudo o que o eleito precisava saber.
Outro aspecto: negavam a paixão e a cruz como algo não essencial para a redenção, mas um tanto acidentais, na verdade ilusórias, porque sendo um espírito puro, Jesus Cristo realmente não tinha corpo, realmente não sofreu, e realmente não morreu. O corpo dele era uma espécie de fantasma.
Observe caro leitor que o gnosticismo define a natureza da modernidade. É uma corrente particular, virulenta e destrutiva do pensamento moderno, aliás, uma corrente que inclui o liberalismo, o marxismo, e o nacional-socialismo. Algumas características do gnóstico moderno:
Tem a convicção de que ele próprio é divino e onisciente. Para ele não há nenhum mistério, porque sua sabedoria e a sabedoria de Deus são idênticas.
Daí ele infere que ele é plenamente redimido, pois tem uma centelha divina, a gnose divina.

De acordo com Voegelin, há um paralelo no gnosticismo moderno, ou seja, eles são para suas próprias teorias políticas reducionistas a categoria de revelação divina (científico). Reivindicam a onisciência, pois já descobriram tudo, desde as leis da física às leis da história humana e da mente humana. Como os antigos gnósticos, eles acham que sua sabedoria é idêntica a de Deus. Ora, isso acaba no ateísmo. Não é de se admirar que hoje muitos se declarem ateus.

Há uma diferença entre os antigos e os modernos. Os antigos acreditam que a matéria é a fonte de todo o mal e por isso devem fugir da matéria para o mundo espiritual. Para o gnóstico moderno, tem que recriar o mundo material para eliminar o mal. Para os antigos gnósticos, o mundo material foi criado pelo terrível Deus do AT. Para o moderno, o mundo material foi criado pelo inconstante deus do “acaso”.
O gnóstico moderno aplica o mesmo zelo religioso para a recriação do mundo material. Daí é possível entender as tendências de natureza política em um mundo não muito distante, ou seja, “...a paixão secular moderna de criar um paraíso na Terra, é, na verdade uma reformulação de uma antiga heresia cristã. Não é acidental que o marxismo prevê um reino glorioso (o comunismo) introduzido por um apocalipse (revolução)”. Wiker p.62).

Segundo Voegelin, é uma “...re-divinização” da esfera política, que significa tratar o Estado como um substituo da divindade”. Essa ideia vem até nós a partir dos filósofos do liberalismo secular. A religião deve se subordinar aos objetivos do Estado laico (em Hobbes, Spinoza, entre outros). Assim também se pode acrescentar a divinização do homem (com Augusto Comte e Marx). A verdade é que “...o liberalismo é parte dessa rebelião gnóstica contra o cristianismo, ou mais precisamente, uma simplificação herética do mesmo”, pois ele oferece uma visão fundamentalmente materialista da humanidade, onde o homem pode ser levado a uma utopia tecnológica administrada por um governo cada vez mais poderoso e centralizado. Voegelin diz ainda que “...a autoconfiança da elite gnóstica acredita ter visto toda a verdade”. Aqui também se explica a facilidade com que os liberais “...abraçam a interminável manipulação médica e técnica da humanidade (seja através de fertilização in vitro, à pesquisa com células-tronco embrionárias, aborto seletivo e outros procedimentos. Nisso os liberais têm uma animosidade especial em relação ao cristianismo, e a razão, ironicamente, é que o cristianismo da qual os liberais abriram mão, oferece a crítica mais poderosa do {próprio} liberalismo.
É sensato e saudável ao leitor sempre prestar atenção em determinadas correntes que sutilmente circulam em nosso meio, parecendo inofensivas, mas que no fundo são desastrosas para a humanidade e para nossa fé em Jesus Cristo, nosso Salvador. (fonte: WIKER, Benjamin VIDE Editorial – 2016.)
É bom Pensar!

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