O sutil engodo da literatura e movimentos de Autoajuda

A pós-modernidade se caracteriza por insistir na autossuficiência em relação a si e ao cosmo.

Há pouco tempo foi realizada uma pesquisa, no qual estava em pauta a questão da literatura, ou seja, quais os livros mais lidos nos últimos tempos. Por incrível que possa parecer, a resposta para mim, não surpreendeu: os livros de autoajuda e os movimentos religiosos ou semi religiosos que tratam na mesma direção. Por outro lado, fica ainda mais explícita a situação de uma civilização que está em franca decadência e por esta e outras razões, o homem e a mulher contemporâneos buscam respostas para preencher o vazio existencial e a melancolia enfadonha da vida através de meios “artificiais”, para ver uma luz no final do túnel. Entretanto, essa postura retrata uma cultura que se voltou sobre si mesma focando num materialismo frio e impiedoso provocado pela ideologia do ter.
Quando a ideologia de acúmulo é o foco principal de qualquer sociedade é preciso estar em atitude de alerta. Por quê?
Tenta-se substituir os valores morais, as virtudes cardeais e teologais por sutis filosofias e ideologias materialistas, aliás, que são atalhos que querem resolver os problemas humanos sem a Transcendência, mas, e, sobretudo prescindindo dela. É bom dar destaque que esquecimento consciente e/ou não de uma espiritualidade sadia e madura não está fundamentada em sentimentalismos e fundamentalismos baratos, afinal é um “tiro no próprio pé”. Afinal, fomos criados à “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27), portanto se trata de estar sempre vinculados à grande “Razão Criadora Universal do Bem”.

Um aspecto preocupante e que chama a atenção na atualidade é a evasão de muitas pessoas que foram batizadas católicas, e se rebatizam em outras denominações religiosas, embora, diga-se de passagem, não existem dois batismos e nem rebatismo. Mas, com a promessa de prosperidade financeira em tempos de crise procuram respostas imediatas para solucionar vários problemas. E, assim, são doutrinadas e induzidas na ideologia do “ter”. O insaciável capital financeiro descobriu nestas seitas um canal fácil para dominar as populações, aliás, não somente pobres, mas também da classe média alta e rica. Com essa crença em ganhar dinheiro fácil afastam-se de sua Igreja original onde foram batizadas e procuram algo que lhes concede à tão desejada felicidade do bem estar pelo canto das “sereias”, e, assim, alcançar a felicidade, ganhar muito dinheiro e se tornarem ricas de bens materiais. A sociologia é muito perspicaz ao perceber o engodo dessa ideologia que subjaz a esta corrida para a literatura de autoajuda e dos movimentos religiosos ou/e semi religiosos que prometem ganhos fáceis. A realidade é que somente os líderes e ajudantes dessas organizações é que ganham dinheiro. Assim quanto mais há crise de trabalho, de desigualdade social, pobreza e miséria mais pessoas seguem as “pseudos promessas” mirabolantes oferecidas por todo o tipo de “seitas”, que através de um processo de lavagem cerebral tornam as pessoas cegas e as mesmas entregam tudo para receber em dobro. Realidade esta que nunca chega, pois quem enriquece são os líderes destas organizações e não o povo que necessita de ajuda.
Dentro desta mesma lógica há um crime sério consciente ou não que é a perda da identidade do “eu” das pessoas e de sua dignidade, pois acabam não sendo mais donas dos próprios bens que já possuem e ainda perdem o que tem; afinal, não possuem mais o domínio sobre si mesmas. Pergunta-se: Como é que o poder público não age diante dessa realidade? É nítida a prática estelionatária, embora sem nenhuma punição para os responsáveis. É uma propaganda enganosa. O resultado disso é a frustração em médio e longo prazo, ao ver abortados seus sonhos de se tornarem ricas, e, daí, para uma disfunção psíquica no comportamento de muitas pessoas, é um passo. Infere-se daí situações de depressão e desespero por perderem tudo e pior: não tendo mais uma referência para ajustar sua vida e ser feliz. Essa é a lógica do materialismo, muito presente no imaginário da sociedade cuja raiz está na farta literatura de autoajuda como de movimentos diversos que prometem muito, embora não consigam realizar tais sonhos, salvo exceções, pois os que crescem e se enriquem são os líderes e os que colaboram em dar falsos testemunhos para frisar a validade das promessas.
É triste verificar a transmutação da mensagem de Jesus conduzir o tecido social para a falsa “Teologia da Prosperidade”. É preciso destacar o desvio da fé cristã com essa “teologia da prosperidade”, afinal é um desvirtuamento do Mistério Pascal que na prática e também teoricamente falando, “promove e incentiva a busca do “deus” dinheiro” {...} é afronta sacrílega ao Projeto do Reino e a missão enviada pelo Pai através de seu Filho Jesus {...} é inimaginável um seguimento de Jesus sem ter presente o desapego ante os bens materiais”. (SILVA, Ari Antônio – Ética, Espiritualidade e Cidadania - Ser cristão na cultura pós-moderna – Ed. Nova Harmonia – 2019 p.115). Por outro lado, é preciso frisar para o leitor da cultura atual que:
“...um dos venenos que está inserido no contexto do tecido social da pós-modernidade é uma busca isolada de Deus que é uma concretização do imanentismo, {...} e que nos bastidores dessa mentalidade subjaz uma falsa autonomia que exclui o verdadeiro Deus”. (op.cit in SILVA, Ari Antônio – Análise crítica da crise do tecido social contemporâneo – Ed. Suliani – Letra&Vida – POA – 2014).
A cultura hodierna cultiva apenas e somente as estratégias para se viver o “bem-estar”, aliás, que confundem com “felicidade” e, que não é a mesma coisa. A visão de bem-estar no mundo materialista tem referência unicamente do “ter”, no entanto, a felicidade vai muito, além disso, pois exige o “sentido último da vida” e que não se encontra somente nos bens materiais. Por isso segue a crítica contra essa farta literatura de autoajuda e movimentos difundidos em grande escala em nossa sociedade, também entre os cristãos católicos. Vê-se que:
“...o consumismo espiritual das ditas “seitas” que se multiplicam cada vez mais, é porque oferecem vantagens materiais {motivada pela ideologia do ter} e assim muitas pessoas na ânsia de ascender financeira e socialmente na vida, migram para tais seitas. É o retrato de uma sociedade baseada na ética hedonista do ter, do prazer e do bem-estar”. (SILVA, 2014 p.148). E segue:
Essas são as “pseudos-espiritualidades” sectárias {que} se aproveitam dessas lacunas humanas e propõem soluções milagrosas como resoluções fáceis atalhando caminhos para resolver problemas financeiros, doenças e etc. Por detrás vem o conceito de lucro e bem-estar material, mas que a maioria que migra continua da mesma forma ou pior que antes. As pseudos-espiritualidades enganam muita gente, aliás, desde a década de 60 criou-se um imaginário nessa perspectiva. Portanto:
“...a disseminação de grupos religiosos de teor neocapitalistas politizados que no seu bojo (sempre trouxe) conscientemente o esvaziamento da verdadeira fé cristã para uma concepção “econômica-religiosa” {...tem} com objetivos claros dividir, sempre com base num fundamentalismo radical e subjugando de forma cruel e criminosa a individualidade das pessoas”. (SILVA, Ari Antônio – Análise crítica da crise do tecido social contemporâneo) – Ed. Suliani – Letra&Vida – POA – 2014 p.116).
O grande desafio da Igreja em sua missão evangelizadora é ter a capacidade de apontar aos cristãos autênticos, mesmo com seus defeitos, o engodo embutido nos fundamentalismos correntes e dar um fundamento teológico e espiritual baseado nos valores do evangelho de Jesus Cristo, aliás, que sempre foi na contramão da ideologia do “ter” na sociedade do seu tempo, mas ensinou a prática da partilha, da fraternidade, da construção de uma sociedade de irmãos uns dos outros, do respeito a dignidade da pessoa, pois afinal, é neste rosto humano que se retrata a “a divindade de Deus”.
Finalmente é ter presente que: “...todo seguidor autêntico de Jesus deve rejeitar a propalada “teologia da prosperidade”, pois o Mestre quer uma experiência pessoal e comunitária, comprometida com o selo da justiça e da solidariedade de uns para com os outros”. (SILVA, 2014 p.117). É bom pensar!

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