Uma Cultura em constante Erupção com Ausência de Sentido

Sem a superação dos mecanismos ideológicos e desvinculados da “Grande Razão Criadora do Bem”, torna-se impensável a construção de um mundo novo.

Partindo desse pressuposto torna-se mais fácil inferir a causa última e profunda da crise de todo o contexto do tecido social e também da cultura em si; afinal, há um imaginário desconfigurado por razões ideológicas e por uma civilização cada vez mais decadente pela ausência de valores, pela negação de uma “Verdade” objetiva e priorizando uma cultura reducionista. Não há como construir uma civilização cuja “justa medida” é o fechamento das gavetas estanques da realidade provocada pela ideologia do iluminismo com destaque no positivismo lógico de séculos passados, mas também no hoje da história.
O papa e teólogo Ratzinger, Bento XVI, no discurso aos bispos dos países bálticos, fez referência a uma modernidade mal compreendida que implica “...a supervalorização das necessidades individuais e, também, a uma “...modernidade que não está radicada em autênticos valores humanos, {mas} está destinada a ser dominada pela tirania da instabilidade e da desorientação. (“ASSUNÇÃO, Rudy Albino – Bento XVI, a Igreja Católica e o “Espírito da Modernidade” – Uma análise da visão do Papa Teólogo sobre o “mundo de hoje”- Ed.Paulus/Ecclesiae – 1ªed. 2018 p.178).
Falta, portanto, um discernimento entre “secularismo e secularidade”, e isto faz com que “...não haja uma visão positiva de secularidade e, pior: põe à dura prova a vida cristã dos fiéis e dos pastores {...} a secularização que se apresenta nas culturas como um delineamento do mundo e da humanidade sem referência à Transcendência, impregna todos os aspectos da vida quotidiana e desenvolve uma mentalidade em que Deus se tornou total ou parcialmente ausente da existência e da consciência do homem” (ibidem p.181). A Igreja sempre teve e tem continuamente uma preocupação com os novos tempos. Não é algo de agora e sim, de longa data, para não dizer desde os primórdios da Igreja. Entretanto, com o avanço da tecnologia e do progresso, também muitos aspectos da vida humana acabam sendo atingidos e isso faz com que sempre haja um “aggiornamento” para o discernimento do que está e/ou não em sintonia com a mensagem cristã. Portanto, é prudente e saudável continuar o processo de evangelização para o Anúncio da Boa Nova sem, no entanto, prescindir do diálogo e análise de toda a complexidade que envolve os rumos da sociedade. Por isso, é interessante saber que “...a secularização não é apenas uma ameaça externa para os fiéis, {pois} já se manifesta há muito tempo no seio da própria Igreja. Por que esse sinal de alerta?
“...{há um processo de desnaturação} a partir de dentro e em profundidade a fé cristã e, por conseguinte, {atingindo} o estilo de vida e o comportamento quotidiano dos fiéis. Eles vivem no mundo e são muitas vezes marcados, se não condicionados, pela cultura da imagem que impõe modelos e impulsos contraditórios, na negação prática de Deus: já não há necessidade de Deus, nem pensar nele e de voltar para Ele”.(ibidem).

Meu próximo livro, já em fase de revisão, cujo título será: ECONOMIA, PROGRESSO E POLÍTICA SEM ÉTICA: CIVILIZAÇÃO SEM FUTURO se propõe a ser um instrumento para auxiliar e orientar os leitores a uma reflexão crítica da cultura contemporânea. Essa, por sua vez e infelizmente, vem cada vez mais marcada pela “razão exaltada, e depauperada” pela ideologia do Iluminismo que quer substituir, radicalmente, a luz da fé e a luz de Deus, para uma transcendência imanente e materialista. Ora, a secularização sob este ângulo jamais irá favorecer a finalidade última da ciência e da fé.
Ambas, ciência e fé possuem seus métodos próprios, âmbitos, objetos de investigação, finalidades e limites, e deve haver, sem margem de dúvida, um respeito mútuo ao reconhecerem a legitimidade possível de exercício autônomo, em conformidade com os princípios que lhe são próprios (fonte: cf. Gaudium et Spes,36).
Na Encíclica Fides et Ratio, João Paulo II foi muito feliz ao afirmar que “...a fé é posta à prova também {...} atravessada por formas sutis e capciosas de ateísmo prático e teórico”(cf.46-47). É bom frisar que “...a consciência secularista com a sua pretensão exclusiva à racionalidade definitiva não aceita Deus como a RAZÃO CRIADORA UNIVERSAL DO BEM”. Há um esquecimento bíblico e fundamental com relação ao versículo 27 do capítulo primeiro do livro de Gênises (Gn 1.27): Deus, ao criar o homem e a mulher, legou a responsabilidade do cuidado da Casa Comum e concedeu o dom da inteligência, vontade e a liberdade humana. Ora, aqui se encontra a origem do cosmos e da humanidade e que lhe dá a inteligibilidade. Em muitos outros textos publicados, tenho afirmado que Deus não tem imagem ou forma; mas, na prática, a expressão “imagem e semelhança” são os dons acima citados. Em contrapartida, também deu a tarefa de aperfeiçoar o mundo (cf.Gn 1,28ss) e, assim, há o sentido teológico da tecnologia, do progresso e do constante desenvolvimento através da ciência. Portanto, a ciência não tem fim em si mesma; contudo, deve estar a serviço e do cuidado de todo o gênero humano e da criação.
“A presença do secularismo é algo normal, mas a contraposição dele com a fé é uma anomalia”. Quanto à questão econômica e política é preciso frisar que a Igreja Católica não tem uma “teoria econômica” e muito menos um “partido político”. No entanto, isso não significa um desinteresse pelas questões econômicas, políticas e sociais. Afinal, a Igreja está inserida num contexto societário e precisa ajudar a refletir e orientar os cristãos e os homens e mulheres de boa vontade sobre a forma mais adequada para construir um mundo inclusivo, melhor e mais justo para todos.
No entanto, como bem colocou ANDREW M. YUENGERT, Professor comum de economia e pensamento social da Busch School of Business da Universidade Católica da América. Recebeu um (BA em Economia pela Universidade da Virgínia 91983) e um Doutorado em Economia pela Universidade de Yale (1990). Lecionou 24 anos na Universidade Pepperdine e ocupou a cadeira de Blanche Seaver em Ciências Sociais. Permaneceu por quatro anos, como economista pesquisador no Federal Reserve Bank de Nova York. Durante o período acadêmico de 2015-2016. Teve contribuições de pesquisa em vários campos: filosofia econômica, ensino social católico, estudo empírico da religião, economia do trabalho e finanças. Ele foi ex-presidente da Associação de Cristãos Economistas. Atualmente trabalha em um livro que explora as implicações da sabedoria prática para a Doutrina Social Católica e uma introdução mais popular à Doutrina Social Católica.
Yuengert, cristão católico convicto, fez uma observação importante ao afirmar que: “...a Igreja Católica quer até mais do que defender a ética católica em questões econômicas, deseja que haja uma troca interdisciplinar entre economia e teologia católica para a promoção de uma sociedade mais humana”. (op.cit – in CARNEIRO, Pedro Erik – Ética Católica para a Economia – Bíblia, Teólogos e a Ciência econômica – Ed. Appris – 1ª ed. 2019 p.34). E segue:
“...A Igreja deve se preocupar primordialmente com o Reino de Deus e com a ética humana que leva a esse Reino (Mt.6,33), mas se a Igreja não tratar com solidez de questões econômicas dificilmente conseguirá participar do debate econômico. Certo é que questões econômicas envolvem questões éticas, teológicas e filosóficas, mas uma política fiscal deficiente do Estado, {como} uma política macro desajustada e uma demografia não resolvida agravará os problemas éticos também”. (CARNEIRO, 2019 p.35). Sempre ao se abordar temas do Construto Político socioeconômico, mas também na ótica da fé, é importante frisar que os cristãos, mormente os católicos necessitam de um olhar além da fé, para compreender e responder na medida do possível, a complexidade da atual cultura. Vive-se em outra época da história e com novos elementos muitas vezes desconhecidos, tempos de pluralismo tanto ideológicos como políticos socioeconômicos. A Igreja necessita dessa visão ampla desta realidade, aliás, que não é nada fácil de discernimento entre o anúncio da Boa Nova e da Evangelização, enculturando-se nesses tempos confusos e sem muita clareza conceitual. Faz-se necessário uma boa formação em todas as áreas do conhecimento para os agentes de pastoral, sacerdotes, religiosos(as), bispos e líderes de nossas comunidades.
É sempre prudente a escuta, o senso crítico ante as inúmeras ideologias que muitas vezes corroem a essência da fé cristã.