A crítica radical da Encíclica "Laudato Si" aos responsáveis pelo equilíbrio do ecossistema

Seguindo a análise do filósofo Michael Löwy em relação à Carta Encíclica de Francisco, papa, ficam patentes alguns elementos que são cruciais quando ele procura ver o “todo” da vida humana e do Planeta Terra.

Num primeiro momento Michael frisa com veemência e determinação apontando as sutis estratégias do “capital financeiro” para manter em pé o sistema vigente de economia no atual contexto político e socioeconômico. Diante deste quadro, Michael destaca da Encíclica de Francisco o seguinte:

1. A crítica radical face à irresponsabilidade dos responsáveis, ou seja, das elites dominantes.

2. A crítica mordaz às oligarquias interessadas pela conservação do sistema quando se trata da crise ecológica. Michael, citando ainda as palavras de Francisco diz: “...muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando reduzir apenas alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuarmos com os modelos atuais de produção e consumo”.

Ora, é uma cegueira provocada pela ganância do “ter” numa determinada classe da sociedade, ou seja, é algo que deixa qualquer pessoa de bom senso estarrecida. Pior: ainda incentivam a busca desenfreada pelo acúmulo de riqueza. Infelizmente, muitos do tecido social, ainda não acordaram do profundo sono “epiléptico” porquanto continuam reféns de ideologias fúteis e obsoletas que não têm futuro algum nem para eles e muito menos para a humanidade. A esta altura é preciso trazer à tona o verdadeiro conceito de ideologia, aliás, que muitos talvez não tenham presente, principalmente alguns ditos “intelectuais”, ou “cultos” ao se arrogarem serem donos da “verdade total e última”. Não existe nenhuma ideologia ou concepção de mundo que seja absoluta e que possuem a verdade última, pois é preciso sempre estar atentos aos sinais dos tempos, afinal nele nada se perpetua e tudo é provisório.

Como se pode conceituar a palavra “ideologia” no seu verdadeiro sentido, ou seja, no âmbito da filosofia? A mesma sempre parte de uma “premissa central” que norteia o agir posterior.
A partir da premissa principal, jamais alguém que abraça tal pensamento pode questioná-la. Ela se torna absoluta e cega
Acentua sempre o individual em detrimento do coletivo, pois não interessa o outro, mas sim, o objetivo posto na premissa.
Fecha totalmente o acesso ao diferente, mesmo que alguém apresente a deficiência da premissa.

Perde-se a identidade do “eu” em favor do todo e, assim, priva o sujeito de ter a capacidade de questionar a veracidade ou não da premissa.
Jamais admite o novo, o que chamamos isso de lavagem cerebral individual e grupal.
Assim são as consequências nocivas quando uma ideologia é absolutizada. Ela petrificada e sempre barra o avanço da história na medida em que faz as pessoas reféns desta ou daquela ideologia. Aqui faço menção a um artigo que publiquei há tempos atrás com o título “CONCEITOS ANACRÔNICOS AINDA PRESENTES NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA”, que se encontra no BLOG do meu site. Recomendo, também a leitura do artigo postado com o título: O ENGODO SUTIL DA LITERATURA E DOS MOVIMENTOS DE AUTOAJUDA. (www.padreari.com/blog)
Se por um lado, a ideologia cega e aliena como já dizia Marx ao abordar sua critica ao capitalismo, por outro, olhando sob o ângulo ótico do filósofo Paul Ricoeur, a ideologia pode ter também seu lado positivo, ou seja, enquanto fornece a pequenos grupos, em geral de natureza étnica como os ciganos e outras minorias que se baseiam numa ideologia que lhes forneça “identidade”. Mas, ao mesmo tempo, sempre os membros de uma determinada concepção de mundo, precisam constantemente avaliar, revisar seus princípios norteadores, para não perder o bonde da vida e da história sem prescindir de seus valores culturais e/ou religiosos.

Em contrapartida, observa-se que ainda perduram os binômios: direita x esquerda; capitalismo x comunismo; sociais democracias e totalitarismos. Até quando? É preciso ter ciência que qualquer ideologia que se petrifica e não admite o diferente, e ser questionada, é alguém que parou no tempo, pois se fecha sobre si e sua ideologia e o resultado disso, de acordo com um princípio da sociologia, acaba “implodindo”.
Ironicamente, foi preciso um “Corona-Vírus” para dizer que somos todos irmãos e andamos no mesmo barco, embora na diferença. Essa doença provocou um choque no pobre, na classe média e alta e nos ditos abastados e afogados na riqueza. A lição está dada, pois somente dando as mãos uns aos outros e superando os extremos é que teremos uma nova humanidade. “No meio está a virtude”.

Em relação ao Papa Francisco, tenho a imagem de um homem nobre, sincero e, ao mesmo tempo terno, que mostra estar além do seu tempo. Teve a coragem de romper com conceitos ideológicos, petrificados, podres e obsoletos de uma cultura que se perdeu no tempo e de sua missão na temporalidade. É, sem dúvida, um homem corajoso e iluminado pela Providência Divina. Ele soube ver, ler e sentir a decadência da atual cultura como a doença mundial que necessita de cuidados. Captou sutilmente o cheiro putrefato da decadência ética-moral da humanidade como um todo.
Portanto, e, segundo Michael, quando fala de Francisco em relação à Carta Encíclica, faz suas as palavras do Papa ao afirmar: “...as medidas concretas que a oligarquia técnica-financeira dominante propõe são perfeitamente ineficazes, como por exemplo o dito “comércio de emissões de carbono”. Continua Michael, citando Francisco:
“...esta é uma falsa solução”. Michael observa que: “é um dos argumentos mais importantes da Encíclica “Laudato Si””.
Quando a Conferência Episcopal Boliviana se reuniu, Francisco escreveu: “...a estratégia de compra e venda de “créditos de emissão”, {isso} pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajuda a reduzir a emissão global de gazes poluentes. Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência dum certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e setores. É interessante a observação de Michael quando afirma: É explicável o pouco entusiasmo dos círculos “oficiais” e dos adeptos da “ecologia do capitalismo verde”, em relação à “Laudato Si”.


A CLAREZA CONSISTENTE DA CRÍTICA À CRISE ECOLÓGICA NA ENCÍCLICA DE FRANCISCO.

Michael faz uma observação muito pertinente em relação à Carta Encíclica de Francisco ao dizer: “Antes que seja tarde, talvez seja importante, que as sociedades mais desenvolvidas saibam abrandar um pouco a marcha, pondo alguns limites razoáveis e até mesmo retroceder antes que nada se possa fazer para salvar a ecologia humana e ambiental”. Como?

Facilitando as formas de cooperação
Incentivando organizações comunitárias para que defendam os interesses dos pequenos produtores e, assim, salvaguardar a predação dos ecossistemas.

É claro que para isso se faz necessário medidas drásticas. Para abordar tal questão, Michael cita a Jornalista e Escritora Noemi Klein. Nasceu em 08 de Maio de 1970 em Montreal e atualmente reside em Toronto no Canadá. Em 2000, essa escritora publicou um livro cujo título é: “A TRAMA DAS MARCAS EM UM PLANETA VENDIDO”, que para muitos se transformou em um manifesto do “Movimento Antiglobalização” . O livro traz os efeitos negativos da “cultura consumista” e as pressões impostas de grandes empresas sobre os trabalhadores e cita um exemplo a NIKE, que imediatamente reagiu. Em 2002, também publicou o livro “CERCAS E JANELAS”, que é uma coleção de matérias escritas sobre o Movimento de Globalização assim como OMC e o FMI. Muito outros artigos foram publicados por esta escritora na mesma linha.
A escritora Noemi Klein em se tratando de medidas drásticas propõe romper antes que seja tarde o seguinte:
O rompimento com os combustíveis fósseis (carvão, petróleo) deixando-os no subsolo.
Promover um conjunto de iniciativas antisistêmicas, que questionam a propriedade privada para modificar as estruturas perversas do atual modo de produção e consumo, de modo especial das grandes multinacionais BP, SHELL, TOTAL e etc.

Aqui Michael acrescenta que: “...o Papa menciona a utilidade de “grandes estratégias que desdenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma “cultura do cuidado” que permeie toda a sociedade, mas esse aspecto estratégico é pouco desenvolvido na Encíclica.
Michael chega à conclusão de que o atual sistema é insustentável e por isso afirma que Bergoglio “...busca uma alternativa global, que ele chama de “CULTURA ECOLÓGICA” , uma mudança que “...não pode {se} reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição”.
Michael em seu comentário diz ainda que: “...deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. Mas há poucas indicações sobre a nova economia e nova sociedade que correspondem a essa cultura ecológica. Não se trata de pedir ao papa que adote o ecossocialismo, mas a alternativa futura permanece um tanto abstrata”.
Quanto à figura de Francisco, fica clara que ele “...endossa a opção prioritária pelos pobres das Igrejas latino-americanas, e, ainda, deixa bem explícito a importância de um imperativo planetário, ou seja, que: “..nas condições atuais da sociedade mundial, onde há tantas desigualdades e são cada vez mais numerosas as pessoas descartadas, privadas dos direitos humanos fundamentais, o princípio do bem comum torna-se imediatamente, como consequência lógica e inevitável, um apelo à solidariedade e uma opção preferencial pelos mais pobres”.

Outro aspecto a ser destacado no artigo de Michael é que na Encíclica “...os pobres não aparecem como os agentes de sua própria emancipação” – No entanto, Michael faz questão de frisar que este projeto é o mais importante na teologia da libertação.
Concluo a análise de Michael Löwy sobre a Encíclica de Francisco enfatizando que: “...a tarefa da Igreja não é substituir os partidos políticos, propondo um programa de mudança social {...} mas retrata que a “Laudato Si’” é uma preciosa e inestimável contribuição para a reflexão e a ação no sentido de salvar a natureza e a humanidade da catástrofe.
É sempre bom conhecer, ler e refletir antes de julgar! Isso retrata bom senso e manifestação de um caráter idôneo, sábio, prudente e inteligente. Pense!

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