A PERFEIÇÃO DOS MEIOS E A CONFUSÃO DOS FINS: Características de nossa época (Albert Einstein)

O momento histórico da humanidade é paradoxal. Por um lado, é fascinante o progresso e o desenvolvimento de ponta do atual imaginário tecnológico e, sem dúvida, materialmente falando, em todas as dimensões. Por outro, é perceptível que junto do mesmo descortina-se uma “torre de babel” que se desvela, principalmente quando se trata do avanço dos Meios de Comunicações sociais como a internet, telefonia com fibra ótica, com os meios de transportes tal como a aviação sempre mais sofisticada, a fluvial, o sistema rodoviário e ferroviário, e as diversas áreas do conhecimento científico, enfim é algo fantástico em termos de benesses em favor da humanidade, embora, e, tristemente se sabe que não é algo que esteja beneficiando o bem estar de todo o gênero humano.

O fato é que todas as conexões hoje mostram impressionantes avanços. O século XXI foca e aposta tudo na direção da ciência com significativos resultados, embora, diga-se de passagem, que a mesma não tem a última palavra sobre o homem e a história.
Em contrapartida fica sempre explícita e cada vez mais claro que o tecido social como um todo, ironicamente, se encontra numa fase de profunda desorientação, carente de afetos, anomia de valores e princípios como se acentua uma significativa “ruptura com a tradição”, embora deva ficar claro que “Tradição” não significa honrar as cinzas, mas a manutenção da essência que na prática são os valores e princípios cujos pilares devem ser os norteadores de uma sociedade sadia e com sentido.
Pergunta-se: Em que consiste essa tradição? O cultivo do respeito, do amor mútuo, da amizade e de uma espiritualidade profunda e crística, espírito de solidariedade, justiça, idoneidade, valorização da família como célula mãe de qualquer comunidade humana, a educação para a prática das virtudes cardeais e teologais na vida das crianças e jovens que certamente farão a diferença no contexto que se encontra o tecido social, isto é, completamente perdido num imaginário sem norte desta cultura contemporânea que paulatinamente vai se diluindo no vazio niilista da historicidade.
É interessante ler e meditar as palavras de Victor Frankl quando afirma: “...cada época tem suas próprias neuroses e cada tempo necessita sua própria psicoterapia”.
Partindo desse pressuposto lanço mão de dados estatísticos da OMS, (talvez não estejam tão atualizados) onde nos fornece dados preocupantes em relação a um futuro baseado nas incertezas do tempo quando nos retrata que trezentos e quarenta milhões de pessoas hoje no mundo, padecem de depressão; oitocentos mil suicídios por causa da mesma, ou seja, uma pessoa em cada 04 sofre de depressão em algum momento da vida e, {lamentavelmente} somente 25% tem acesso a um tratamento efetivo.
Hoje é reconhecida como a enfermidade do século. Afirma Frankl: “...não queremos dizer com isto que toda a depressão tem origem num conflito espiritual-existencial”. No entanto, uma coisa é certa como se constata {que há} uma falta de sentido, uma desesperança que resulta deste transtorno.
No prólogo do livro Existencia Humana y Misterios de Dios de Gabriel Zanotti, o pensador e psicólogo Horácio Muñoz Laretta em fevereiro de 2008 disse: “...a experiência do vazio existencial não é patológica em si (não é uma enfermidade), mas pode ser patogênica (capaz de provocar). (op. cit – prólogo do livro acima mencionado – p.5).
Ao se confrontar com a leitura do livro de Zanetti, já no prólogo nos permite e provoca qualquer leitor a uma reflexão crítica sobre o próprio momento que se vive nos tempos atuais. O texto é desafiador e incisivo ao retratar que se vive uma época de muitos paradoxos, questionamentos que é o reverso da moeda de nosso tempo que chegou a um desenvolvimento deslumbrante, mas que, por outro, bate à porta de cada ser humano, de instituições, religiões, organizações diversas e políticos que neste momento histórico, ressalvando sempre as exceções, mostram falta de preparo para enfrentar uma situação tão delicada.
Certamente a sociedade terá que aprender que não se pode mais eleger políticos por profissão, mas sim, independentes de cor Partidária, mas que saibam exercer uma “Gestão Pública” com competência, senso de justiça e idoneidade e com a preocupação primeira em defender o bem comum de todo o tecido social, ressalvando sempre as exceções, pois neste momento é de se perguntar: Para onde é que se caminha e com que objetivos os gestores públicos da nação estão preocupados?
Os autênticos homens públicos em momentos de crise, seja qual for, têm consciência como sabem conduzir a sociedade com firmeza, segurança e promover a esperança para uma possível solução objetiva, enquanto os que focam apenas seus próprios interesses, embriagados e obsecados pelo poder relativizam tudo para permanecer no poder conduzindo tudo e todos a uma situação de desânimo generalizado, principalmente os mais indefesos como afetando o bom andamento do “todo” da sociedade seja relativo à saúde pública, da economia, da educação e de todos os setores que integram a sociedade. A “res publicae” exige homens com ampla visão e grandeza de caráter para gerir qualquer nação.
Horácio Muñoz Larreta, ao comentar a assertiva de Frankl argumenta: “... se cada tempo necessita sua própria psicoterapia, não é menos certo que cada época necessita sua própria reflexão e sua própria filosofia”.
Caro leitor, se por um lado vibra-se ante o desenvolvimento e um progresso tecnológico deslumbrante, por outro, percebe-se uma crise do “todo” societário como algo nunca visto nos últimos tempos. O mundo tomado de surpresa e/ou não, pois significativa parte dos gestores públicos, não somente do Brasil, mas praticamente do mundo todo, subestimaram a epidemia do Covi-19, por negligência, ou quem sabe por falta de humildade, afinal o que foi uma inicial epidemia saltou para uma Pandemia quase incontrolável e com o assustador número de mortes. De quem é a responsabilidade! É importante destacar que a crise não está no fim. Pergunta-se: Será que foi o suficiente para dar uma sacudida na arrogância humana, ao pensar que com o dinheiro e a ciência poderiam tudo?
Tudo sucumbiu como bem afirmou Edgar Morin, houve um processo de desconstrução estrutural. Então! E agora?

Caro leitor, nessa crise em curso, a mesma tem nos colocado na dimensão oposta ao barulho, às festas, ao consumo descontrolado, aliás, algo que nos fez esquecer do fim último para o qual fomos criados. O Criador nos criou à sua imagem e semelhança para sermos felizes, no entanto, parece que a cultura contemporânea esqueceu-se de si e de fazer a viagem para dentro do seu interior o “EU” e, assim, prescindindo do encontro com a Transcendência. O resultado é o vazio, as doenças sem diagnósticos claros, o desânimo, as depressões e tristezas sem uma aparente causa, embora e, sobretudo, o esquecimento e a vaidade provocada pela tecnologia de ponta e as benesses da mesma, podem ter obscurecido o objetivo último do nosso caminhar para o futuro, afinal não é no barulho da vida que há de se encontrar a resposta última do sentido da existência e, sim, no encontro do silêncio interior, embora o exterior também ajude. Em contrapartida não significa que se tem de prescindir de celebrar a vida e curti-la. Mas tudo tem seu limite e seu espaço.
Aproveitando o rico prólogo do livro de Gabriel Zanetti elaborado pelo psicólogo e pensador Horácio Muñoz Larreta e já tendo lido grande parte dessa obra faz jus as palavras de Horácio: “...{Zanetti} começa disparando ao centro do conflito de nossa existência humana, ou seja, “o esquecimento do eu” e “a situação limite inevitável. É certo que devemos reconhecer, {que} no esquecimento do “EU”, é dizer, fora de nós mesmos, de “nosso centro” e citando Unamuno “posseídos”, {referindo-se às posses materiais} nos esvaziamos e vive-se alienados do real da temporalidade e dos objetivos últimos da própria vida.

Caro leitor, o importante é sermos nós mesmos, pois quando se perde o ser-si-mesmo, o mundo das coisas nos absorve e assim perde-se no entulho das coisas. É bom lembrar que “jamais se pode perder o senso da virtude da temperança até porque “temperança” é um dos dons do Espírito Santo” (Gal 5,22) e nos ajuda a caminhar com sensatez.
São João da Cruz nos alerta que: “...é preciso parar (silenciar) para que se possa fazer a travessia da razão calculista à razão contemplativa”. Toda a crise que se está atravessando nos induz e chama a cada um para fazer o descobrimento do nosso “eu-mesmo”, mas não só, também se faz necessário o reconhecimento de “si-mesmo” no rosto do outro. A crise do processo pandêmico que se está vivenciando talvez seja um momento de verificar nosso agir para novas alternativas de viver, mas com sentido de vida e não afogados no consumismo desenfreado que até então o mundo tem vivido.
É bom pensar! (continua).

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