No pólo sul do Brasil

Sensação térmica, um conceito abstrato, é a mesma coisa que definir o amor ou o gosto da berinjela. Não consigo ver estas duas palavras em uma mesma frase, são antagônicas, não fazem sentido juntas; como razão e emoção, ou matemática e poesia. Temperatura e sensação? O termômetro é um engenheiro da Nasa, enquanto, a sensação térmica é a cozinheira do hospício. É ela quem condimenta o frio da Serra Gaúcha, o tal do “frio mentolado”. Gelo refrescante que pode ser sentido das vias aéreas até os ossos. Aqui o frio é diferente, é dos piores, é úmido. Já pude comparar, na pele, o fim do inverno do hemisfério norte com o início do inverno no hemisfério sul e, notadamente, há, pelo menos, dois grandes tipos de frios bem característicos: o frio seco e o frio úmido.

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Extremo

Extremo. É o limite absoluto; o ponto mais extremo da montanha é o topo; distante; grau máximo; ponto limite. Não há como passar além do extremo, é a última fronteira, às vezes, entre o real e tudo aquilo que, aparentemente, não existe. O extremo é intransponível. Extremo Sul, a fronteira mais austral do Brasil. Extremo deserto. Extremo psicológico. O extremo da exaustão. Extremo é a palavra que a Carol Candiago usou para descrever sinopticamente o que foram os dez dias de sua aventura: foi o extremo. Eu compreendi imediatamente. Foi a palavra perfeita.

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O fantoche de grilo

Em minhas caminhadas longas ajeito uma pausa para pescar. Estes dias saí de Canela, acompanhado por amigos, em um domingo belíssimo. Seguimos pela estrada da Lageana até a estrada que vai para Vila Oliva, um cenário fantástico, bucólico e de uma beleza regional única. Não é um daqueles lugares que lembra outros lugares que conhecemos, é um lugar completamente original! O percurso total tem pouco mais de 22 km em bom chão batido, com uma diferença de elevação de cerca de 320 metros, ou seja, aclives e declives fortes. Contudo, o paraíso é a recompensa do passeio, o belo Rio Santa Cruz, com seus lajeados entremeados por campos de matacões e seixos irregulares. A estiagem deixou a água do rio translúcida e nunca o vi tão lindo. E os lambaris, estes pequenos monstros, tiveram que se esconder nas partes mais profundas.

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A maior praia do Mundo

Em 1994, eu li um artigo no jornal que me encantou, dizia que um jovem, com o mesmo nome e idade que eu, iria percorrer o litoral brasileiro inteirinho a pé, levando tudo o que precisava em uma mochila. Imediatamente cobicei fazer o mesmo. Também eu tinha esta vontade de sair caminhando pelo mundo com uma mochila nas costas. Eu já havia feito pequenas viagens de carona. Caminhando, seria muito mais desafiador. Não sei por que cargas da água eu me lembrei desta história. Subi ao sótão de casa e procurei um empoeirado e velho arquivo morto com recortes de jornais daquela época. Foi quase um achado arqueológico.

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A onda perdida

Certa feita, noite alta, estrelada, ao fim de uma longa e boa pescaria, longe da costa, uma onda nos acertou pelo costado. Não era muito forte, mas, nos pegou desprevenidos. Balançou o barco repentinamente, e uma caixa de pescado foi jogada ao mar. Seguramos forte nas amuradas. Que cagaço! Tentamos reequilibrar enquanto muitas coisas soltas corriam pelo fundo da embarcação, entre os espaços das cavernas. No escuro, perdemos o pescado. Uma lástima. Uma tristeza. Um susto de valor elevado, no entanto, poderia ser muito pior: alguém em pé, teríamos homem ao mar.

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Sobre o autor

A pesca me levou, por um caminho sem volta, até a biologia. Nada mais natural. E a biologia me fez pescar melhor. Deu-me uma base fantástica para compreender o que acontece lá dentro da água. A pescaria técnica. Científica. O conhecimento como o melhor equipamento para pegar um peixe. Pensando ...

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