A autêntica civilização traz libertação dos medos e angústias

Economiaenegocios Artigos 16 Outubro / 2018 Terca-feira por Padre Ari

Diante desse paradoxo torna-se uma exigência buscar o fundamento desse paradigma que parece obstruir o fluir do bem-estar autêntico da humanidade. Afinal percebe-se uma tensão entre o sentido e o niilismo. Ao percorrer o caminho da história da humanidade, percebem-se as diversas nuanças das civilizações, mas também o desaparecimento de brilhantes povos, e alguns sem nunca ter deixado vestígio algum, aliás, que os historiadores o digam.
No entanto, as grandes civilizações que se mantiveram de pé, aconteceu enquanto se levou a sério princípios e valores sólidos, e, esses, é que proporcionaram às comunidades harmonia, paz, desenvolvimento e progresso, especialmente, em se tratando de valorizar a dignidade do ser humano, com uma educação integral do tecido social e da preocupação da saúde da população como o respeito do próprio ecossistema. O afrouxamento desses valores e princípios sempre foi o início da decadência de grandes e expressivas civilizações.
Com o desenvolvimento da tecnologia sem dúvida a história da humanidade deu um salto qualitativo, pois colaborou no bem-estar das pessoas. Em contrapartida o problema que se percebe é que nem todos têm acesso a essa beleza da tecnologia. Mas não há como negar os benefícios para a humanidade. Por outro lado, é preciso trabalhar e criar uma consciência de que todos têm o direito de usufruir das benesses da tecnologia. Como isso ainda não é uma realidade há um mal estar ascendente no na sociedade hodierna, pois algo falta dentro desse contexto desse desenvolvimento e que inquietam a vida do ser humano em todas as culturas.
É visível no decurso da história atual de que alguma coisa não está de acordo com o equilíbrio de justiça e solidariedade na sociedade. Se na raiz da vida humana sempre há o desejo de viver feliz, o que é que faz com há um processo anômalo no contexto dessa mesma sociedade? Como justificar comportamentos estranhos em todo o tecido social, mormente das novas gerações ante um progresso e desenvolvimento de grande expressão? Como explicar os medos e pessoas movidas pela ansiedade, a ingestão significativa de fármacos em todas as faixas etárias para controlar a ansiedade, os comportamentos depressivos, a insegurança diante da vida, a falta de perspectiva e motivação para a construção de um futuro sólido e feliz, principalmente, das novas gerações? A vida na atualidade histórica chegou a um patamar de tédio e desconforto, aliás, o que não deveria ser o normal frente a tantas benesses da tecnologia.
Todo esse contexto gira em torno de várias situações, seja de ordem econômica, social, política e também religiosa. No entanto, e, principalmente no que tange a falta de sentido de vida já nos retrata a ponta do “iceberg”. A sutileza desse fenômeno é algo quase inacreditável, embora real. Por quê?
“...as mais modernas formas de sociabilização são alicerçadas no enfraquecimento interno do ser humano. E sustentadas majoritariamente por estratégias de pânico e medo: insucesso, solidão, infelicidade, desemprego, divórcio, pobreza e etc”. (CASTRO, Paulo Vieira – A Civilização do Medo – O Mundo como nunca o imaginámos...4Estações Editora Parede – Portugal – 2017 – p.7).
De acordo com o autor, as formas de socialização são elementos que nos induz a uma situação de incertezas diante da vida, como na fluidez da existência humana. Tais aspectos, de alguma forma são provocados por ideologias que na maioria das vezes não se percebe com clareza o que permeia os bastidores de tais visões de mundo, embora é algo que possui um enorme poder de fogo e produz uma sociedade que nos transmite o pânico e outros distúrbios psicossomáticos. Por isso, Castro, continua a reflexão ao afirmar:
“...é o medo, e não o ódio, que nos torna irracionais. O oposto do amor não é o ódio. É medo. Por isso, enquanto houver medo, não haverá paz, dignidade, amor, liberdade...nem humanidade”. (CASTRO, 2017)
Curiosamente esse estranho elemento na cultura atual é pensado, pesado e medido. Paulo Vieira de Castro, nos coloca de forma racional e sensata “...o sucesso do medo é fácil de explicar. Não conheço nada que seja eficaz. Os governos, as organizações, os líderes há muito compreenderam isso. O medo é mais forte do que qualquer um dos melhores sentimentos humanos. É disso que nos fala a história contemporânea: de uma civilização assustada, tentando sobreviver entre o medo e o assombro de tudo o resto. Onde medo e ignorância andam, sempre, de mãos dadas
“...encontraremos os fundamentos históricos para a civilização do medo de forma mais pronunciada e globalizada após a Segunda Guerra Mundial”.
A atual cultura movida por uma pluralidade de ideologias, em geral com fortes traços contraditórias, jamais conseguirá superar o estranhamento de si mesma. É preciso dar-se conta que todo esse contexto desafia os pensadores e cientistas, os pesquisadores e sociólogos, os responsáveis para gerir a “Coisa Pública” repensando a história contemporânea em termos de totalidade, pois fragmentada como está no momento vigente, é impossível a superação de todas as distorções políticas socioeconômicas em que se vive na atualidade. Isso quer dizer de que há sequer nenhuma possibilidade remota de conduzir a humanidade para uma vivência sustentável e agregadora e a um futuro com esperança para alcançar o sentido último da própria história e do próprio homem: Deus
Volto a citar para responder a essa anormalidade conjuntural a busca de uma ética solidificada nas religiões. Por quê?
“...estas animam valores, ditam comportamentos e dão um significado último à vida de grande parte da humanidade que, a despeito do processo de secularização, rege-se pela cosmovisão religiosa. Como as religiões são muitas e diferentes, também variam as normas éticas. Dificilmente se pode fundar um consenso ético baseado somente no fator religioso”. (BOFF, Leonardo – Ética e Espiritualidade – Como Cuidar da Casa Comum – Vozes -2017 – p.55). Nessa realidade o pensador e teólogo Hans Küng propõe a questão religiosa como a matriz para uma ética planetária a necessidade das religiões dialogarem entre si. Afirma: “...no diálogo, {é bom} acentuar os pontos {mais} comuns do que os pontos de diferenciação. Com isso pode-se inaugurar a paz entre as religiões. Essa paz não basta em si mesma, mas servirá de base para a paz entre os povos”. (apud Küng – in Ética e Espiritualidade – Leonardo Boff, 2017 – p.55).
Reler o percurso da história da humanidade retrospectiva sempre irá nos ajudar a ver e perceber ao longo dos séculos os acertos e os erros que se tem cometido, mas, por outro lado, realizar um processo ascendente de crescimento a partir dessas análises retrospectivas da história universal. Outro elemento a ser considerado é que sempre que na construção e evolução da história se prescindiu da Transcendência, a consequência em médio e longo prazo pagou-se um alto preço.
O bom senso sempre nos aponta que quem revisa continuamente sua caminhada, além de evoluir, crescer e desenvolver para novos paradigmas, seja na tecnologia como nas relações interpessoais sedimenta com objetividade e realismo um mundo mais humano, solidário, de paz e harmonia entre os povos. Esse é um pressuposto importante ao analisar criticamente a vivência e os comportamentos retrospectivos da história para evitar erros e desajustes como as discriminações, exclusões, os marginalizados e tantos outros preconceitos que por vez dominaram o pensamento de muitas comunidades ao longo do tempo. É hora de mudanças! Mas é da responsabilidade de todos, mormente dos líderes das diversas comunidades.
É bom pensar!

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