Palavra empenhada

Economiaenegocios Artigos 03 Março / 2014 Segunda-feira por Prof. Julio Pogorzelski

Na medida de sua conveniência, o homem costuma empenhar com toda a sua força e convicção o seu comprometimento perante algum combinado, ajuste ou mesmo perante seus valores. Pode fazê-lo ante seus pares, amigos, familiares e também no seio espiritual. Isto decorre naturalmente da sua existência e das relações que fomenta. Manifestam-se geralmente pela forma oral ou escrita, quase rejeitando, pela incompatibilidade, a forma não expressa.

A palavra empenhada movimenta percepções, formata e reforma comportamentos, muitas vezes na exata medida das expectativas que cria. Quando verbalizada parece então assegurar para o interlocutor maior garantia, sobretudo quando repetida e acompanhada de expressões faciais convincentes.

No campo das relações interpessoais mais íntimas, como as de amizade e matrimoniais, essas declarações assumem uma importância ainda muito maior, eis que uma confiança naturalmente já depositada fomenta expectativas de maior extensão, na medida em que pensamos que os que nos amam ou se aproximam desse sentimento jamais estariam dispostos a nos prejudicar.

Porém, para além das ocasiões em que tais compromissos já nascem fugazes, no charco das más intenções tecidas por um estulto, há também um conjunto de circunstâncias que, não reveladas na ocasião, não visíveis porque não dimensionadas corretamente ou porque inexistentes até então, podem surgir como variáveis e fatores condicionantes ao cumprimento da palavra empenhada.

Algumas vezes correspondem a expedientes alojados no inconsciente e que acabam por tornar combalidas todas as mais legítimas boas intenções. Outras refletem fatos inesperados usualmente chamados de casos fortuitos ou de força maior. Dentre elas, exemplificativamente, no campo dos contratos, fato muito comum é a afetação financeira do devedor, que deixa de pagar. No campo da política, a afetação moral, seduzida pelas inesperadas artimanhas do poder e da corrupção.
E é nesse cenário que as relações prosseguem, conquanto seja evidente o maior grau de complexidade em um ou outro caso. O homem, volátil, dá seguimento aos seus diversificados relacionamentos. Sua inconstância, além de criar mecanismos de autoproteção social que em algumas vezes o repele até mesmo e injustamente de grandes oportunidades, e assim da mesma forma aos seus pares, também oferta seu outro lado: aos perspicazes, oferta função autopedagógica.
Nas palavras de Montaigne, o prejuízo de um é proveito de outro. Sob essa formatação, o prejuízo reclama de sociedades justas sua utópica exclusão. Um sonho que provavelmente como tal permanecerá, podendo encontrar sua razão na orientação bíblica deveras controvertida de que a “não há um justo, nem um sequer”.

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