"Identidade Postiça" e sua inserção na Cultura Contemporânea

Economiaenegocios Artigos 18 Setembro / 2018 Terca-feira por Padre Ari

Por outro lado, há uma exigência de buscar os paradigmas e as causas da decadência política e social dos Estados Nações que, num processo sutil e silenciosamente cruel, invadem o espaço da sociedade com roupagem nova e com o objetivo de justificar a positividade do sistema vigente.
É impossível construir uma sociedade saudável, sustentável sem que os alicerces estejam baseados em valores e, especialmente no que diz respeito à dignidade humana. No entanto, ao se colocar as causas do fenômeno dessa disfunção social hodierna se esbarra ante um contexto niilista e de vazio total ao tratar-se do sentido. Com a globalização tais deformações no quadro da sociedade como um todo, tornam difícil, embora não impossível, a busca por respostas compatíveis com a dignidade humana, como com a ecologia ambiental cujos alicerces sejam reais e com fundamentos sólidos para um novo mundo.

Infere-se então, que é preciso desmascarar as formas “camaleônicas” que se deslocam através do livre mercado e do capital financeiro que constantemente criam novos, atraentes e sofisticados mecanismos para justificar e provar para o cidadão desavisado, que a ideologia do mesmo é a melhor resposta para um mundo mais justo e fraterno.
Por outro lado, é através de neologismos, aliás, que apenas trocam a “cor” do animal, embora as distorções e disfunções políticas socioeconômicas continuem sempre idênticas ao que era ontem. A aparência para muitos parece algo razoável. No entanto, não deixa de ser um engodo no substrato do pensamento da ideologia do ter e do poder.

Quando se aborda a questão sistêmica não quer dizer respeito apenas ao binômio: esquerda X direita, mas também as sociais democracias que, salvo exceções, todas vão declinando do bem comum, da “res publica” para totalitarismos absurdos e sem lógica. Desse pressuposto quem acaba normatizando a sociedade é o “dinheiro” como fim último.

Quando citei, acima, sobre o novo termo usado pelo capitalismo e outros sistemas financeiros que não sejam o da “solidariedade”, os mesmos tomam formas como o “camaleão”, mudam de terminologias para justificar e explicar que tais sistemas contém a verdade e contempla a todos.

Hoje, no contexto da cultura vigente, observa-se que vem paulatinamente configurando-se o neologismo “neuroliberalismo” que traz em seu bojo a “obsessão neurótica”, seja de direita, esquerda e/ou sociais democracias que sempre termina em totalitarismos disfarçados sem nenhuma possibilidade de ingerência do cidadão nas decisões do próprio destino. Por trás de tudo, por incrível que pareça são sistemas obsoletos, conservadores e centralizadores cujo objetivo último é o “lucro” e não o bem comum dos Estados Nações. Infere-se desses paradigmas a ambiguidade do processo da “globalização” em sentido estrito da palavra.

O sistema é tão bem estudado e costurado, embora seja uma ideologia plenificada de nocividade, que dá ao cidadão a sensação de bem-estar e liberdade para todos. Assim é justificada a luta hercúlea dos defensores do sistema vigente que lançam mão de todos os mecanismos para manter o poder centralizador em relação ao conjunto da sociedade.
Perceba caro leitor! A premissa da ideologia neoliberal parte do “continuísmo” do sistema e o abrandamento dos impactos sociais tanto da esquerda quanto da direita, aliás, o que muda é apenas a linguagem e o modo de apresentar, mas o conteúdo prático é idêntico.
“...um objetivo-chave do “neuroliberalismo” consiste em inculcar na população uma identidade postiça: a ideia ou o sentimento de que a desregulamentação e as privatizações sejam vistas como o melhor para todos. {...} com tais planos de ajuste se incentiva a concentração do capital e se engendra um genuíno Estado do Mal-estar, com seus consabidos montante de desemprego e merma {redução} salarial”. (BIAGINI, Hugo E – PEYCHAUX, Diego-Fernandez – O Neuroliberalismo e a Ética do mais forte Ed. Harmonia – 2016). E segue:
“...alquebra-se a consciência social, pois são, assim, as próprias classes subalternas que passam a referendar as mesmas políticas de recortes do gasto público e das conquistas sociais que não só aumentarão suas próprias carências, mas que também contribuirão para pulverizar sua condição de cidadãos para reduzi-la a de simples súditos”.

COMO INVERTER UM SISTEMA DECADENTE, DESUMANO E EXCLUDENTE?

A sociedade como um todo precisa acordar do “berço esplêndido” em que pousa a cabeça, ou seja, das várias culturas dominadas por um sistema que está falido tanto em nível econômico, social e cultural. Vive-se a fase do vazio existencial por nos encontrarmos na ditadura do “dinheiro”. “... o império do dinheiro provoca uma fratura na comunidade mundial, concentrando o poder em uns poucos. Não pensa no bem comum da humanidade. Cresce como um sistema fechado em seu próprio benefício, que gera pobreza e fome de grandes populações no interior de seu poderoso império global, enquanto continua impulsionando um modo de produção que coloca em perigo o futuro do ser humano na Terra”. (PAGOLA, José Antônio – Jesus e o Dinheiro – Vozes – 2014).
Vale nesse contexto observar que o sistema vigente do neuroliberalismo “...visa a aumentar o apelo de muitas ideias comumente aceitas por detrás da subjetivismo”. (BIAGINI – PEYCHAUX, 2016). Esse destaque frisa as disfunções que induz e enaltece o individualismo e o pragmatismo de uma sociedade fria e sem escrúpulo algum com referência ao tecido social.
A verdade é que a superação da estrutura dessas “fantasias sistêmicas” é possível através da arte de pensar, pois o exercício da filosofia e da espiritualidade, certamente são mecanismos que neutralizam tal paradigma. A junção da filosofia e da fé/espiritualidade é um caminho que poderá fazer sempre mais a diferença na superação dessa alienação provocada pela ideologia do livre mercado e do capital financeiro globalizado, embora deva ficar claro que a espiritualidade não é a “religião” como instituição, afinal a mesma pode correr o risco de ser outro aparelho ideológico.
Ora, o Brasil hoje tem um vergonhoso e assombroso déficit de desempregados, ou seja, na faixa dos 13 milhões de cidadãos. Descaradamente nos encontramos às vésperas de um novo pleito eleitoral para a escolha dos gestores da nação. Entretanto, é preciso estar atento aos candidatos que aí estão resguardadas as devidas exceções, percebe-se o rosto do continuísmo do aparelho ideológico vigente. Todos os discursos estão voltados para a promoção de trabalho para todos, investimento na educação, saúde. O hilariante desse quadro de novos gestores, é que a maioria esmagadora são candidatos que há décadas estão no poder, e nunca resolveram a situação da desigualdade social, revelando uma falta total de criatividade, e não acrescentando nada de inovador. Que futuro se tem pela frente?
A superação da crise local e mundial está vinculada ao pensamento da “dialética do iluminismo” que fragmentou o humano e a realidade cósmica em setores estanques, sem uma visão de conjunto do real. Antes de formar especialistas que “sabem muito de pouco e pouco de nada” é necessário o pensar a totalidade humana e cósmica. Somente uma postura nesse imaginário paradigmático é que se fará a diferença e o ajuste necessário, ou seja, levar adiante um processo de neutralização e relativizando as “gavetas estanques” mecanismo este, que tenha a possibilidade de enfraquecer e abrir novo sistema de gerir a “A coisa Pública” através da descentralização do poder centralizador do livre mercado e do capital financeiro e com a participação efetiva de todos os cidadãos.
Por outro lado, a própria existência humana nesse momento histórico, se obriga a viver uma vida dupla que desconstrói o núcleo de uma sociedade sadia e sustentável. O poder dominante divulga constantemente sua ideologia do poder a todos os setores vivos e ativos do tecido social. Como? Através de que?
“...livros, cátedras nas universidades e organizações, que operam como novas plantas do “Evangelho da fortuna e bons empreendedores”, {teologia da prosperidade?!} pregando a necessidade de abandonar os pensamentos negativos’. (BIAGINI – PEYCHAUX, 2016). E segue:
“...aqueles que sofrem de um desemprego monstruoso estão certos de que estar desempregados não é ruim em si, mas permite estarem abertos para “outros horizontes”, os empresários são dignos de respeito ou os que não trabalham são vagabundos pesados, enquanto continuamente esmagam o espaço de que a saúde e a educação devem ser julgados por não haver por não haver serviços mais lucrativos”.

Percebe-se o que permeia os bastidores dessa ideologia desumanizante, aliás, que produz uma “fantasia ideológica” que de forma brilhante BIAGINI chama de “ética do mais apto” e conclui que isso alcança a “ressignificação” dos conceitos clássicos do liberalismo.

A ideologia do subjetivismo é mais cruel de que aparenta, pois lança mão de um imaginário em que o individuo que mais produz é {o} mais apto para o sistema e que Michel Foucault chama de “economia de energia microfísicas”. (op.cit – in Biaggini).

É preciso insistir de que “...dinheiro e poder não libertam o homem, pois o caminho é sempre o amor. O dinheiro deve servir e não governar”. (Papa Francisco).
É bom sempre pensar!

(continua no próximo artigo).

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