Cristianismo e Filosofia: São compatíveis? (texto IX)

Percebe-se no imaginário de muitos pensadores modernos e pós-modernos certa tendência a um determinismo intelectual em se tratando da fé e da razão, ou seja, a negatividade da possibilidade desta realidade.

Por um lado, quando não se busca com seriedade a raiz epistemológica que gerou essa resistência e imaginário, sempre segue a uma postura, embora inconsistente, que não há como conciliar fé e razão. Sem pretensão de ser dono da verdade, essa convicção está ligada a uma premissa falsa cujo silogismo, mesmo correto, terá, sem dúvida, uma síntese falsa. É preciso ir mais longe à tentativa de um entendimento dessa compatibilidade.
Para muitos intelectuais, salvo sempre as exceções, existe uma tendência de autoafirmação e independência em relação à “Razão Criadora Universal do Bem”, que é a “Verdade”. Essa postura retrata especialmente na cultura pós-moderna, a ruptura com a “Verdade” = “Razão Criadora Primeira do bem”, pois o homem se auto se intitula como “Verdade” subjetiva que se arroga para o “eu” como se essa fosse a resposta última da existência humana e ambiental. É bom lembrar que: “A ciência sem a religião fica manca; a religião sem a ciência fica cega” (Albert Einstein: 1879-1955), outra frase sobre essa realidade é: “A ciência sem fé é loucura, e a fé sem ciência é fanatismo” (Martinho Lutero). Tal paradigma quando não levado a sério carrega a consequências catastróficas, pois a própria ciência fica empobrecida, por sem estar vinculada à “Razão Criadora Primeira”, assim ela se torna inescrupulosa, arbitrária e cruel.
A ruptura com a “Verdade” é de fundo ideológico e abre espaço para loucuras. Exemplos claros dessa fragmentação no hoje da história contemporânea é a massiva produção de armas letais, ogivas nucleares, a produção em grande escala de armas de fogo e químicas com interesses monetários. Também é bom lembrar que o fundamentalismo político, social e religioso sempre descamba em tragédias. O geneticista dos Estados Unidos, Francis Collin, Diretor do projeto Genoma Humano, responsável pelo mapeamento do DNA em 2001, aliás, um feito espetacular da ciência moderna, diz algo que faz muito sentido para o homem da pós-modernidade repensar a vida: “Uma das grandes tragédias de nosso tempo é a impressão criada de que ciência e religião precisam estar em guerra”. (Francis Collin). Esse cientista foi ateu até seus 27 anos de idade. Sua visão de mundo começou a mudar ao cursar a Faculdade de Medicina e testemunhando a fé religiosa de seus pacientes, o que o inspirou a escrever o livro: “A linguagem de Deus” no qual faz referências a ícones cristãos como Santo Agostinho, Lewis, Madre Teresa de Calcutá entre outros. A cultura contemporânea está ainda muito embebida na absolutização do “eu” sem medir as consequências letais. Jamais se deve reduzir a consciência ao subjetivo. É uma realidade séria e, um vulcão que pode explodir a qualquer momento ao perder o sentido da própria existência. Aproveito para citar um filósofo que fala sobre a verdade, ou seja, Martim Heidegger, quando afirma:
“...a verdade é revelação e não um acordo entre a sentença e o objeto. O “Dasein” {ser existencial} é a revelação e o é na medida que se revela a si mesmo {...} como estamos emaranhados com o mundo experimentamos tanto a autenticidade como a inautenticidade. A autenticidade acontece quando o ‘’Dasein” projeta seu ser sob possibilidades e, ao contrário, a inautenticidade acontece quando o “Dasein”= ser existencial se aliena na absorção, fechando-se a sua possibilidade”. (JUNGLOS, Márcio – Hermenêutica Inclusiva – Ed. Harmonia – 2019 p.12).
O problema em pauta foca exatamente esse fechamento do “eu” sobre si mesmo, mas sem abertura à Transcendência. No decorrer da história se percebe que a cultura pós-moderna, mesmo descobrindo o próprio “eu”, sutilmente se afirma como um “basta eu mesmo”. Nessa assertiva há várias distorções, e, dentre elas cita-se a que se descobre a si, mas se afirma como fim último, e com isso, há um rompimento com a “Razão Universal Criadora Primeira” que é a Verdade e assim se fecha na subjetividade.
Penso que a reflexão precisa avançar para um patamar que se abra para a realidade última da existência ao lançar o olhar para algo que vai além da temporalidade. Uma boa contribuição para o paradigma de sair de si vem de Merleau Ponty, texto extraído do seu livro: “Fenomenologia da Percepção” quando: “...estabelece um entrelaçamento no mundo-da-vida que engloba uma cumplicidade de sentido entre o Eu, o corpo, o mundo e os outros e [com isso ele é objetivo quando diz: “...colocar as essências novamente na existência”. (JUNGLOS, 2019 – p.15-16). E segue:
“...o mundo tem uma presença originária pela qual possui sua própria forma de dádiva que é independente de nossa percepção, porém, nós o experenciamos e isso estabelece uma unidade constitutiva que não pode ser unilateral apenas compartilhada”.

É nesse sentido que os Padres da Igreja sempre viram a “Semina Verbi” = sementes do Verbo, não nas outras religiões, mas na filosofia como “sinais da atuação antecipada de Cristo”. Por quê?
Foi exatamente o que aconteceu com os filósofos gregos da antiguidade clássica, pois destacaram o valor da razão em detrimento dos mitos e superstições. É o que se vê muito hoje, numa época da história com um desenvolvimento tecnológico de ponta, parecem se repetir os mitos modernos e se esquecem da “Razão Universal Criadora do Bem”. Dessa forma “...o homem abre o caminho por entre costumes e tradições rumo ao “logos”, isto é, rumo a um compreensão do mundo e do divino através do poder da razão”. (ibidem p.153). E segue:
“...assim, eles não incluíram a fé cristã na esfera das religiões, mas associaram-na ao processo racional da discernimento. Para o teólogo e papa Ratzinger, a racionalidade faz então, parte da essência do cristianismo e essa reivindicação de racionalidade não é feita por nenhuma religião como por ele”. (continua no próximo texto).