A presença do Secularismo na Modernidade é normal, a Contraposição com a fé é anomalia (texto XI)

Em reflexões anteriores já tenho acenado que a própria fé cristã tem um princípio racional, pois a mesma sempre parte da “Razão Criadora Primeira”. Por outro lado, é preciso frisar ao leitor que há uma diferença entre o iluminismo cristão dos primórdios das primeiras comunidades, da ideologia iluminista do século XIX.

As primeiras comunidades buscaram na filosofia grega/helenista o suporte racional, quando essa se opunha ao politeísmo que explicava o mundo através dos mitos e crenças de então, embora sempre tivesse o cuidado para que a fé jamais se diluísse na filosofia.
No decorrer dos séculos o cristianismo sempre procurou mostrar a importância da razão para a fé cristã, pois a mesma tem seu fundamento no monoteísmo judaico conforme artigos próximos passados, já publicados. No entanto, faz-se necessário dizer que historicamente no decurso do tempo houve muitas hermenêuticas em torno do binômio secularismo X modernidade.
Tal problemática tem acirrado muitos debates, principalmente dos séculos XV com um especial destaque no século XIX, por essa absolutizar a razão como verdade última. Embora até nossos dias se perceba que há uma insistência em dar à razão como algo que tenha a resposta última sobre a existência humana. É interessante conhecer o trabalho exaustivo de vários teólogos nesse debate, mas pretendo destacar a figura de Ratzinger, pelo esforço que tem feito antes, durante e após o Concílio Vaticano II, com acirrados debates sobre esse fenômeno.

Sempre é pertinente exemplificar algumas manifestações deste eminente teólogo ao se tratar desta questão. Num primeiro exemplo cita-se, quando ele se dirigiu aos os Bispos Sul-africanos que fez a seguinte afirmação: “...a Igreja Católica permanece comprometida na sua missão de oferecer apoio integral à promoção da sociedade moderna”. (cf. op.cit – Discurso à Senhora Konji Sebati – Embaixadora da República da África do Sul junto à Santa Sé por ocasião da apresentação das Cartas Credenciais, Vaticano, 1º de dezembro de 2005 – in Assunção, 2018 p.178).
Em outra ocasião aconteceu quando Ratzinger se dirigiu aos Bispos dos Países Bálticos em visita “ad limina Apostolorum”, Vaticano em 23 de junho, 2006. A esses ele novamente abordou a questão da modernidade e deixando bem claro que se tratava de: “...uma modernidade mal compreendida”, que implicava a supervalorização das necessidades individuais e, também, de que seria uma “modernidade que não está radicada em autênticos valores humanos {mas} destinada a ser dominada pela tirania da instabilidade e da desorientação”. (cf. ibidem – op.cit in Assunção).
É nítida e tendenciosa a postura de nossa sociedade contemporânea em frisar a fragmentação da realidade existencial, mormente, quando se trata de querer separar a razão e a ciência da fé. Observa-se, salvo sempre as exceções, que uma parte significativa de pensadores e/ou intelectuais, parece ter certa má vontade em reconhecer a objetividade da “Razão Criadora Primeira” da qual tudo depende e procede. O resultado é palpável na atualidade, pois há um mal estar geral, um vazio existencial e o niilista. No entanto, se recusam muitas vezes em aprofundar histórica e objetivamente a fonte da “Verdade”, pois ciência verdadeira sempre é a busca da “Verdade”, e, por ser provisória e estar situada no tempo e no espaço, jamais é possível atingir a essência última de si mesma.

O teólogo e papa Ratzinger diz que tal paradigma oscila entre dois polos: “...por um lado a Igreja reconhece os valores modernos que correspondem ao seu próprio conjunto de valores ou que a Igreja ainda considera que tenham nascido no seio da fé cristã mesma; esses a Igreja pretende endossar e promover, por outro, há o aspecto negativo da modernidade, que exclui Deus, exclui os valores fundamentais e, por isso, deve ser corrigido”. (cf. ibidem - p.179).


O PENSAMENTO E A PREOCUPAÇÃO DO TEÓLOGO E PAPA RATZINGER NA RELAÇÃO IGREJA E MODERNIDADE


Lendo e refletindo suas obras, textos, conferências ao longo de sua vida como professor, pesquisador e teólogo de grande relevância, inclusive na atualidade, ele deixa entrever certa decepção com a cultura contemporânea o binômio modernidade X secularização em sua acepção vista na atual cultura como negativa. Por quê?
Para ele essa acepção negativa é aquela que além de secularizada também traz no seu bojo “...a aparição de novos movimentos sectários como também uma insensibilidade à fé cristã e a tendência determinista de fragmentar o “todo”. Daí Ratzinger infere que:
“...o mundo atual está marcado pelo processo da secularização que, através de complexas vicissitudes culturais e sociais, não apenas reivindicou uma justa autonomia da ciência e da organização social, mas com frequência também eliminou o vínculo das realidades temporais com seu Criador, chegando a descuidar a salvaguarda da dignidade transcendente do homem e o respeito da sua própria vida. Contudo, hoje a secularização, na forma de secularismo radical, já na satisfaz os espíritos mais conscientes e atentos”. (op.cit – Discurso aos participantes na X Conferência Internacional sobre o Genoma Humano, organizada pelo Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde – Vaticano, 19 de novembro 2005 – in Assunção p. 180). E segue:
“...a secularização, que se apresenta nas culturas como um delineamento do mundo e da humanidade do mundo e da humanidade sem referência à Transcendência, impregna todos os aspectos da vida cotidiana e desenvolve uma mentalidade em que Deus se tornou total ou parcialmente ausente da existência e da consciência do homem. Esta secularização não é apenas uma ameaça externa para os fiéis, mas já se manifesta há muito tempo no seio da própria Igreja {...} como {também} desnatura, o estilo de vida e comportamento quotidiano dos fiéis”. (ibidem p.181). Por quê?
“...vivem no mundo e são muitas vezes marcados, se não condicionados, pela cultura da imagem que impõe modelos e impulsos contraditórios, na negação prática de Deus: já não há necessidade de Deus, nem de pensar nele e de voltar para Ele”. O próprio Ratzinger afirma que neste sentido, a secularização não favorece a finalidade última da ciência, que {deve} estar ao serviço do homem “imago dei”=imagem de Deus.

Talvez a essa altura, muitos leitores se perguntam. Por que se aborda tanto esse assunto, aliás, que para muitos com certeza são temas difíceis de compreensão. Penso que o questionamento é justo e pertinente. No entanto, todas as dificuldades que se vivencia em nossa cultura contemporânea com seus paradoxos, mormente para os cristãos, é algo de grande importância como também às novas gerações que estão embebidas num contexto social vazio, niilista e sem rumo, isso explica o alto índice de suicídios entre jovens e outros, pois não há nenhuma referência de sentido. Portanto, é salutar saber de onde provêm todos os entraves da vida moderna e pós-moderna vivida hoje, principalmente com dificuldade para se viver e celebrar a fé cristã.
Embora o texto seja um pouco difícil de leitura e compreensão, mas com paciência ver-se-á que acrescenta e responde a muitas perguntas de hoje. Em contrapartida, é preciso frisar que tal leitura do texto exige silêncio, reflexão e muita atenção em cada palavra. Afinal todos ganham e saberão nortear suas vidas não no sentido de mundanização, e, sim, de como tomar atitudes concretas para uma espiritualidade crística dentro do mundo, pois que ainda existe, sim, espaço em nossas culturas, sem prescindir do mundo e das coisas boas da tecnologia e do desenvolvimento humano, aliás, tecnologia esta, que tem um fundamento teológico e bíblico (Gn 1,28ss), quando Deus nos dá a tarefa de administrar o cosmos. Ora, não se pode pensar que somos os donos de tudo. Em contrapartida, é lamentável que haja grupos tendenciosos que se arrogam de serem os detentores da verdade última.
Esses pensadores que se dizem livres, salvo exceções, infelizmente, disseminam aos quatro ventos do tecido social, um clima de incerteza e, muitas vezes de desespero ao afirmar que a “fé” não tem mais sentido e empurram a mesma para o particular, quando muito. Talvez o leitor seja desafiado em pensar as raízes dessa cultura que vive alucinada pela ganância do deus dinheiro e não pelo “ser” cujo ser humano procura avidamente a razão última de sua existência. O ser humano foi criado para ser feliz, embora, e, em muitos casos se tornasse arrogante e orgulhoso daquilo que recebeu como dádiva de Deus. Será que o motivo de uma sociedade doente, decadente, sem esperança, deprimida e vazia não esteja ligada a ausência de um desenvolvimento e progresso ligado à “Razão Criadora Primeira”? Há no ar de todo tecido social contemporâneo uma ansiedade e desejo profundo de uma nova sociedade. Mas, e, sobretudo, é necessário partir para o cultivo dos valores e virtude a começar pela humildade. Por outro, o testemunho de cada ser humano na construção do bem comum, especialmente da parte dos cristãos é o que fará a diferença.
É bom pensar!